REPROVAÇÃO NO ENSINO MÉDIO

EDUCAÇÃO NA MÍDIA

 
29 de março de 2012

OPINIÃO: REPROVAÇÃO NO ENSINO MÉDIO

“De modo algum adianta debater as causas da reprovação em qualquer grau de ensino se não houver um compromisso de examinar questões conexas e, mais do que isto, a decisão de introduzir as mudanças que a realidade exige”, afirma Danilo Gandin

Fonte: Zero Hora (RS)

 
 

*DANILO GANDIN. Danilo Gandin. 

Há situações que se repetem periodicamente. Muitas vezes não quer dizer que desapareçam em algum momento, mas sim que, por entrarem na mídia, nos pareça que existam e, por dela saírem, sintamos como se tivessem sumido.
Um exemplo é a reprovação no ensino médio de que tanto se fala agora, que sempre esteve conosco e que “ninguém sabia que existia”.

Lembro-me de que, quando fui, há mais de 30 anos, diretor adjunto do Departamento de Educação Média da Secretaria de Educação do Estado, aconteceu algo igual ao que hoje é tonitruante: a notícia de que o ensino médio reprovava muitos alunos, além do que seria razoável. O então secretário de Educação do Estado acabou com o problema em três dias: constituiu uma comissão para apresentar, em 90 dias, soluções para diminuir a repetência. Obviamente, ninguém mais falou no assunto porque “o problema estava sendo solucionado” e porque, depois de 90 dias, o relatório da comissão foi para a gaveta e todos esqueceram que a comissão existira.

A comissão, da qual eu fiz parte, embatucou na primeira semana de trabalho. Conseguimos imediatamente mais dados do que os que necessitávamos; entre eles, a matrícula e a reprovação em cada série, de cada Escola do Estado. Primeiro tropeço: havia Escolas que não reprovavam ninguém e outras que o faziam com 60% dos seus alunos. Nós não conseguimos decidir quais eram as melhores. Minha proposta de que julgássemos melhores as que reprovavam menos foi rejeitada, sem apelação, em cinco minutos. Mas a todos repugnou, também, a ideia de que aquelas que reprovam muito fossem boas Escolas. Segundo tropeço (ou é o mesmo?): saber onde se está só tem sentido se se sabe para onde se quer ir. Nossa pobre comissão, embora composta de grandes educadores que, individual- mente, tinham clarezas e convicções, não conseguiu produzir um pensamento grupal que pudesse servir como referencial para o então ensino de segundo grau. Um dos grandes motivos para que não conseguíssemos isto foi, aliás, o fato de que sabíamos que não nos seria permitido fugir do senso comum social de que a reprovação é coisa boa.

Quero, então, mesmo que apoiado mais na idade do que na inteligência, fazer duas observações sobre a atual crítica às Escolas que reprovam.

A primeira, embora eu tenha que enunciá-la com uma boa pitada de ironia, é que valeria a pena uma pesquisa para dirimir a seguinte dúvida: é motivo de orgulho ou de tristeza, para os gaúchos, terem as Escolas de ensino médio que mais reprovam? Talvez esteja a população pensando que, se reprovamos mais, somos os que mais levam a sério a Escola e os que têm os jovens mais preparados.

A segunda é, mais, uma advertência: de modo algum adianta debater as causas da reprovação em qualquer grau de ensino se não houver um compromisso de examinar questões conexas e, mais do que isto, a decisão de introduzir as mudanças que a realidade exige. A reprovação é o que aparece; suas causas são a pobreza curricular – algum saber formal sobre algumas pouquíssimas disciplinas –, o professor falando o tempo todo, o uso da nota para castigo, o vestibular como meta, o livro didático fastidioso, a própria disciplinaridade do ensino…

 
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Os que amam a repetência. Por quê?

Eles amam a repetência | Gestão da aprendizagem | Nova Escola

Eles amam a repetência

A retenção não ajuda a aprender, mas pais (e alunos!) defendem a media. Saiba por quê

Ricardo Ampudia (novaescola@atleitor.com.br)

A fala dessa mãe traz embutida a queixa de que a escola não está preparada para lidar com turmas heterogêneas. Ilustração Fabrícia Batista. Foto André Spinola e Castro

Imagine dois estudantes de baixo desempenho em todas as disciplinas. No fim do período letivo, um deles é reprovado, e o outro é promovido. Se após um ano eles fizerem um teste com os conteúdos a que ambos tiveram acesso, é quase certo que o estudante aprovado se sairá melhor do que o repetente. Essa tem sido a conclusão de diversas pesquisas: a reprovação não traz benefício ao aprendizado e dezenas de outros estudos enfatizam suas consequências negativas – a mais grave, de longe, é o estímulo à evasão. 

Apesar disso, a repetência ainda é amplamente defendida e praticada pela comunidade escolar. Em 2008, uma sondagem do Instituto Fernand Braudel apoiada pela Fundação Victor Civita (FVC) com 840 pais de estudantes revelou que 95% dos entrevistados eram contra a progressão continuada. Mais recentemente, um estudo da professora Márcia Aparecida Jacomini, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), investigou as razões desse pensamento. Seu instrumento de trabalho foram os depoimentos de 56 pais e alunos de 3º a 8º ano da rede municipal de São Paulo, onde desde 1992 o ensino funciona no sistema de ciclos (em que a repetência só pode ocorrer no 5º e no 9º anos). Por meio deles, a pesquisadora colheu algumas percepções. As principais: 

– A Educação pública era melhor no passado por causa da ameaça da repetência; 

– Não é possível ensinar em classes heterogêneas; 

– A reprovação é responsabilidade do aluno (uma punição para quem não se esforçou o suficiente). 

Pontos de vista como esses são compartilhados até mesmo pelos maiores atingidos pela retenção, os estudantes (leia abaixo as principais justificativas dadas por eles e também por pais)

“Como se trata de uma pesquisa qualitativa, não é possível generalizar os resultados. Mas o fato é que ela indica uma tendência”, explica Márcia. Por trás da opinião negativa dos pais em relação à progressão continuada está a noção de que o sistema apenas “empurrou” seus filhos para o ano seguinte, sem que houvesse aprendizado. É compreensível, portanto, que vejam validade na única prática que conhecem para combater o problema: impedir o progresso dos que têm mais dificuldade. “Temos uma escola que ainda não sabe lidar com os diferentes ritmos de aprendizagem. Por isso, reprova”, afirma ela. 

Felizmente, há outra saída: é preciso aliar a progressão continuada a ações que ajudem quem precisa. “Ao promover o aluno sem o devido conhecimento, também estamos comprometendo seu direito à Educação”, defende Márcia. 

Entre as medidas essenciais, a pesquisadora destaca a avaliação pormenorizada de cada estudante, o aumento das atividades no contraturno e a estruturação de programas de recuperação paralela. “Esse trabalho requer uma reorganização da escola e das propostas curriculares, além de uma melhoria da formação docente”, explica. Apostar nesse tipo de ação é o caminho para que a escola seja um lugar em que realmente todos possam aprender.

Por que a reprovação seria eficaz 
Para pais e alunos da cidade de São Paulo, a medida é entendida como forma de o professor pressionar a turma a estudar mais e a se comportar melhor 

Pune o mau comportamento 
O estudante aponta a ameaça de repetência (e não a aquisição de conhecimentos)como motivação para estudar. 

Substitui maus professores 
Para esse aluno, a razão de sua retenção no 4º ano foi ter estudado numa classe cuja docente não ensinava bem. 

Seleciona as turmas 
A declaração desse pai expressa a ideia de que quem não sabe todos os conteúdos não pode ficar junto com quem sabe. 

Ajuda a melhorar 
A noção da reprovação como oportunidade vem, ironicamente, da mãe de uma estudante multirrepetente. 

Amedronta os estudantes 
A mãe de aluno faz coro com os professores que defendem a repetência como arma para conter a indisciplina. 

Evita que se fique perdido 
A fala dessa mãe traz embutida a queixa de que a escola não está preparada para lidar com turmas heterogêneas. 

Funcionava no passado 
A fala do pai desconsidera que o ensino de sua época excluía, por meio da repetência, alunos de baixo rendimento. 

Falta reforço paralelo
Muitos pais reclamam – com razão – que o fim da repetência não veio acompanhado de ações para auxiliar quem mais precisa. 

Fonte Livro Educar sem reprovar. Algumas frases foram editadas por motivo de espaço ou clareza.

Publicado em NOVA ESCOLA Edição 246OUTUBRO 2011.