“No Brasil, o fundo do poço é apenas uma etapa” (Veríssimo).

Em texto para o jornal El País, a jornalista Eliane Brum analisa os últimos acontecimentos do governo Temer em relação à FUNAI : o desmonte e a politização. É uma política DELIBERADA de extinção. Criminosa. E comandada POR EVANGÉLICOS E MILITARES DE EXTREMA-DIREITA do PSC.

O texto se chama OS QUE APODRECEM e foi publicado em 02/05/2017.

Quando o candomblé foi afastado do Centro da cidade : Reforma Pereira Passos.

Um texto do historiador Márcio Marcelo da Luz Ribeiro, explica como, no processo de “Bota Abaixo”, os candomblés do Rio (e a população mais pobre, foram afastados do Centro do Rio.

O link, aqui.

FONTE : CAFÉ HISTÓRIA

O texto :

Os deslocamentos dos candomblés na Reforma Pereira Passos

Para apagar as marcas do passado colonial e alinhar-se aos ideais da belle époque, uma série de reformas urbanísticas “botaram abaixo” diversas casas de candomblé presentes no centro do Rio de Janeiro. Transferidas para zonas afastadas da cidade, essas casas tiveram que se adaptar para sobreviver.

Por Márcio Marcelo da Luz Ribeiro

No continente africano, cada região se dedicava a um único deus. [1] No Brasil, no entanto, as populações negras originárias da África acabaram transformando, por inúmeros motivos, suas crenças. Edison Carneiro explica que a junção dos cultos a vários deuses em um mesmo espaço, base do candomblé, é uma dessas adaptações realizadas no Brasil, mais especificamente, na Bahia de todos os Santos. [2] Foi em Salvador que se deu a organização do primeiro terreiro de candomblé do país, por volta de 1830, no bairro da Barroquinha, transferido depois, em definitivo, para o atual bairro do Engenho Velho, onde resiste até hoje com o nome Ìyá Omi Àxé Airá Intilé[3]

Alguns marcos do Candomblé no Rio de Janeiro

Além de Salvador, o Rio de Janeiro também guarda uma relação importante com a história do Candomblé no Brasil. O Calundu [4], por exemplo, foi uma das mais importantes referências às religiões de matriz africana a cidade, ainda no Brasil Imperial. Na década de 1870, um ex-escravo “calunduzeiro” chamado Juca Rosa ganhou fama de grande feiticeiro. O nome Calundu, daí derivado, foi o precursor da umbanda e do candomblé.

Em 1904, os candomblés passaram a ser mais conhecidos pela população carioca. Crônicas de João do Rio [5] publicadas no jornal Gazeta de Notícias e posteriormente reunidas no livro As Religiões no Rio, revelaram os endereços de vários terreiros da cidade, o que permitiu até mesmo a elaboração de mapas. Um dos terreiros mais importantes da cidade à época estava localizado na região conhecida como Pedra do Sal, no Centro da cidade, imortalizada pelo famoso sambista Heitor dos Prazeres como “Pequena África”, entre outras coisas, pela diversidade de negros oriundos de diferentes nações africanas.

É importante dizer a esta altura que o candomblé não se estabeleceu na cidade somente por conta da participação dos seus adeptos. Os leigos também tiveram uma participação importante neste ponto. Desde os tempos coloniais, muitos brancos estavam envolvidos com a religiosidade de origem afro, recorriam aos sacerdotes negros por seus encantos e rituais. As adivinhações, oferendas e iniciações eram e ainda são realizadas mediante pagamento, uma vez que, no candomblé, tudo tem um preço/valor a ser cobrado – o chamado “chão”. [6]

Constantemente, membros da elite carioca eram flagrados entrando e saindo dos endereços dos candomblés, especialmente aqueles localizados no centro. Esse “Rio de Janeiro negro” incomodava a elite social e política, que ansiava seguir o modelo europeu da belle époque, o que significava “branquear” a cidade e fazer obras na cidade, rumo à modernização.

Mãos à obra

Em 1902, Rodrigues Alves tomou posse como Presidente da República. Uma vez no cargo, imbuído desse senso de modernização, iniciou um programa de obras públicas financiado por recursos estrangeiros — 8.500.000 libras — e que priorizou obras de saneamento e reforma urbana. Ele nomeou ainda o médico sanitarista Oswaldo Cruz ao cargo de diretor do Serviço de Saúde Pública, que enfrentou a febre amarela e a peste bubônica. Cruz exterminou ratos, pulgas, comandou a limpeza e a desinfecção de ruas e casas do Rio de Janeiro.

“Avenida Central, no centro do Rio de Janeiro, início do século XX”. À esquerda o Teatro Municipal e à direita a Escola Nacional de Belas Artes. Foto de Marc Ferrez (1909), na https://wordpress.com/post/lolonel.wordpress.com/404Wikipédia.

Para prefeito do Rio, Rodrigues Alves escolheu o engenheiro Pereira Passos. Em 1903, Passos iniciou as desapropriações de vários terrenos e casas, além de dar início, no ano seguinte, às ações de demolição. O prefeito idealizou o projeto inspirado nas reformas de Georges-Eugène Haussmann, prefeito do antigo departamento do Sena (1853-1870), na França. Reformista, Haussmann promoveu grandes mudanças no local que hoje corresponde à área metropolitana de Paris, deixando no passado as características medievais da cidade e tornando-a modelo de progresso para as grandes cidades do mundo. Passos esteve na capital francesa de 1857 até o final de 1860, onde adquiriu conhecimentos e dedicou-se aos estudos de arquitetura, hidráulica, construção de portos, canais e estradas de ferro. Foi uma testemunha das mudanças promovidas pelo prefeito francês naquele período.

No Rio de Janeiro, as reformas dividiam opiniões. Parte dos proprietários viam-nas como oportunidade de lucro em decorrência das indenizações pagas aos locatários; já os comerciantes não aprovaram a remoção de seus estabelecimentos e muita gente reclamava da cidade destruída durante as obras. Jornais favoráveis às reformas estampavam em suas páginas as vantagens de uma cidade moderna que facilitasse a atuação da polícia contra os gatunos [7] e celestinas [8], que “manchavam” a imagem do Rio no exterior.

Com a transformação, a região do centro foi valorizada e a “gente pequena”, expulsa pelas reformas, foi habitando o entorno do cais do porto, subindo os morros, construindo favelas e ocupando o espaço que hoje é o bairro da Cidade Nova. Posteriormente, essa população e seus terreiros foram migrando para a Zona Norte, subúrbios e Baixada Fluminense.

Axé gera axé

Nessa época, muitos terreiros de candomblé foram abertos nos subúrbios e Baixada Fluminense ou simplesmente transferidos para lá. Um dos mais célebres é o Ilê Axé Opó Afonjá[9] aberto por mãe Aninha de Xangô (1869-1938), inicialmente, no bairro da Saúde, em 1886, mudando em seguida para São Cristóvão e, como consequência da Reforma do Centro do Rio, para Coelho da Rocha, para a Baixada Fluminense. Atitudes como a de Mãe Aninha estimularam a abertura de várias casas de candomblés nas regiões da Baixada.

Entre as décadas de 1920 e 1930, as principais lideranças do candomblé do Rio começaram a morrer: Rodolfo Bamboxê, João Alabá, Cipriano de Abedé e Aninha de Xangô. Suas mortes tiveram como consequência o fechamento de suas casas, com exceção do Ilê Axé Opó Afonjá (de Mãe Aninha). Estes fechamentos, no entanto, não significaram o fim dos terreiros de candomblé na cidade, mas, marcaram uma espécie de continuidade, pois, a dispersão culminou na abertura de novas casas por toda a região do “Grande Rio”.

Virou notícia

Devido à forte tradição oral, presente nas religiões de matrizes africanas, existe grande dificuldade em obter documentos que atestem, com precisão, as datas de fundação e transferência dos terreiros durante o período das reformas. Porém, segundo os escritos do memorialista Agenor Miranda Rocha (1907-2004) — professor de Matemática e Latim do Colégio Pedro II, iniciado no candomblé e conhecido como Oluo (adivinho), consultado para decidir quem ocuparia o lugar deixado por Mãe Menininha do Gantois podemos dizer que as transferências foram fruto direto das ações reformistas de Pereira Passos no Rio de Janeiro.

Apesar dos deslocamentos para subúrbios e baixada, os terreiros ainda demorariam para encontrar a paz plena. Segundo relata o jornal O Globo nos dias 9 e 16 de dezembro de 1925, os candomblés “perturbavam” a vizinhança em Nilópolis e Nova Iguaçu (Baixada Fluminense), o que, não raro, culminava na realização de batidas policiais. Na época, práticas religiosas afro-brasileiras eram perseguidas e reprimidas pela polícia civil. As autoridades contavam com o apoio de dispositivos contidos na legislação, caso do Art. 157 do Código Penal de 1890, que previa punição para a prática de “magia e afins”. Essa situação de discriminação na letra da lei persistiu até o final na década de 1930. Em 8 de abril de 1939, a Lei Federal 1.202 desautorizou a repressão policial das práticas religiosas afro-brasileiras.

Joãozinho da Goméia

Não há como falar das religiões de matrizes afro-brasileira no Rio de Janeiro sem mencionar o nome de João Alves Torres Filho, Joãozinho da Goméia (1914-1971). Tendo deixado a Bahia em 1948, Joãozinho da Goméia chegou ao Rio de Janeiro e na cidade abriu um terreiro em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Foi muito criticado pelas lideranças mais ortodoxas do candomblé por expor aos leigos as danças dos orixás em apresentações teatrais no Cassino da Urca. O luxo que empregava nas vestimentas dos orixás também o tornou alvo constante de críticas. Na atualidade, não obstante, o luxo acabou, gradualmente, sendo incorporado às cerimônias do candomblé.

Foto antiga de um ritual afro – Joãozinho da Goméia à esquerda e Kilondirá (Maria Júlia, filha de Joãozinho da Goméia no centro. Foto: Década de 1940, Wikipédia. Autor Desconhecido.

Joãozinho da Goméia era uma verdadeira celebridade. Seu barracão era frequentado por políticos, diplomatas, esposas de políticos e artistas. Aconselhava, ainda, leitores em um jornal de Duque de Caxias, onde morava. Seu maior mérito, no entanto, além da maneira como o mesmo era visto, foi o de aproximar a sociedade do candomblé.

Bom humor da História

O sonho de Pereira Passos de modernizar a capital federal, no fim, realizou-se. E as populações “indesejadas” que habitavam o centro do Rio, caso dos donos de terreiros de candomblé, passaram a habitar locais cada vez mais longe das vistas das elites. Todavia, o “moderno” visual da cidade durou por mais três décadas, até que a Era Vargas, na década de 1940, implementasse novas mudanças, novamente em nome da modernidade. Já o candomblé, que fora perseguido, invadido e saqueado cumprindo-se os rigores da Lei, como que por ironia, no dia 15 de julho de 2009, tornou-se Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro, que um dia o quis esquecido, ou no mínimo, escondido.


Notas

[1] MATTOS, Regiane Augusto de. História e Cultura Afrobrasileira. São Paulo: Contexto, 2007. p.224.

[2] CARNEIRO, E. Candomblés da Bahia. 8. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1948. 145p.

[3] Do Iorubá, “Airá, o senhor da casa”.

[4] Palavra de origem Bantu: Espírito que se empossa de alguém.

[5] Pseudônimo de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, foi um jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo brasileiro.

[6] BAPTISTA, J.R.C. “No candomblé nada é de graça…”: estudo preliminar sobre a ambiguidade nas trocas no contexto religioso do Candomblé. Revista de Estudos da Religião, São Paulo, n.1, p.68-94, 2005. Disponível em:

<www.pucsp.br/rever/rv1_2005/p_baptista.pdf> Acesso em: 2 mar. 2015

[7] Pessoa que faz pequenos furtos.

[8] Alcoviteira; cafetina.

[9] Do Iorubá: Casa cuja força vem de Xangô.


Referências Bibliográficas

A polícia de Nilópolis e os “Candomblés”. O Globo, Rio de Janeiro, 9 de dez. 1925, Matutina, Geral, p.7 Disponível em:<http://acervo.oglobo.globo.com.br&gt; Acesso em: 12 mar. 2015.

A polícia de Nova Iguassú [sic] e os “Candomblés”. O Globo, Rio de Janeiro, 16 de dez. 1925, Matutina, Geral, p.7 Disponível em:<www.oglobo.com.br> Acesso em: 12 mar. 2015.

BAPTISTA, J.R.C. “No candomblé nada é de graça…”: estudo preliminar sobre a ambiguidade nas trocas no contexto religioso do Candomblé. Revista de Estudos da Religião, São Paulo, n.1, p.68-94, 2005. Disponível em:

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BASTIDE, R. As religiões africanas no Brasil: contribuição a uma sociologia das interpenetrações de civilizações. 2ª. ed. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1985. 200p.

BENCHIMOL, J. L. A renovação urbana na Pereira Passos, um Haussmann tropical. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, 1992. 200p.

CARNEIRO, E. Candomblés da Bahia. 8. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1948. 145p.

CARVALHO, M. M. Candomblés na belle époque carioca. ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, Fortaleza, 6p, 2009. Disponível em: <

http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.1060.pdf&gt; Acesso em: 6 mar. 2015

GAMA, E.C. Mulato, homossexual, e macumbeiro: que rei é este? Trajetória de João da Goméia (1914-1971). 2012. 200f. Dissertação (Mestrado em História Social) – universidade federal fluminense Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012. Disponível em: <http://www.historia.uff.br/stricto/td/1563.pdf&gt; Acesso em: 8 mar. 2015

MATTOS, Regiane Augusto de. História e Cultura Afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2007. p.224.

MOURA, R. Tia Ciata e a Pequena África no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura/Departamento Geral de Documentação, 1995. 176p.

RIO, J. As Religiões no Rio. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1976. 245p.

ROCHA., A. M. Os candomblés Antigos do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Topbooks, 1994. 132p.

SAMPAIO, G.B. A história do feiticeiro Juca Rosa: cultura e relações sociais no Rio de Janeiro imperial. 2000. 200f. Tese (Doutorado em Humanas) – UNICAMP, Campinas, 2000. Disponível em: <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000202931&gt;


Márcio Marcelo da Luz Ribeiro é Licenciado em História pela Universidade Estácio de Sá de Nova Iguaçu (RJ) e pós-graduando em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela mesma instituição. Desenvolve pesquisa voltada à religiosidade afro-brasileira. http://lattes.cnpq.br/8650928012758540

Só acreditam no esforço individual : o câncer da reprovação no Brasil

Pesquisa do CENPEC conclui o que já se sabe : a cultura da reprovação segue firme no Brasil. Professores levam pouco em conta as condições sociais e individuais : crêem que o que leva a aprtendizagem é tão somente o esforço individual, ideia contrária ao que demonstram centenas de estudos mundo afora. Aqui temos dois links, um para a pesquisa e um para um resumo dela e dos custos do fracasso escolar, em artigo de Neca Setúbal.

Se der problema : http://www.cenpec.org.br/2017/03/16/professores-ainda-creem-que-reprovacao-pode-estabelecer-justica-na-escola-mostra-estudo-do-cenpec/

http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,custo-do-fracasso-escolar-para-os-alunos-e-o-pais,70001759539

Se der problema : o texto do artigo.

Custo do fracasso escolar para os alunos e o País

Se a reprovação tende a ter mais efeitos negativos que positivos, por que se reprova tanto?

02 Maio 2017 | 03h00

Ao mesmo tempo que amarga as últimas colocações no ranking de aprendizagem da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), quando o assunto é reprovação o Brasil está nas primeiras posições. Enquanto a média mundial de retenções na educação básica, segundo a organização, é de 2,9%/ano, nosso índice chega a 8,2% no ensino fundamental e alcança alarmantes 11,5% no ensino médio, de acordo com o Censo Escolar de 2015.

Embora esses índices estejam em tendência de queda nos últimos anos, reprovar estudantes com aprendizagem abaixo do esperado ainda é uma resposta comum, e preocupante, do nosso sistema educacional. Mesmo em comparação com nossos vizinhos da América Latina e do Caribe, com quem compartilhamos uma história de desigualdades sociais e no acesso ao direito à educação, somos os recordistas em retenções. Em 2010, entre os 41 países que compõem a região, o Brasil tinha a maior taxa de repetência na educação básica, de acordo com o relatório do Compromisso Educação Para Todos, da Unesco. A julgar pelos resultados de avaliações externas, porém, a estratégia de levar os alunos a refazer os anos letivos tem sido insuficiente para garantir a evolução da aprendizagem.

O problema, de fato, não é de fácil solução. É preciso considerar que, se por um lado a aprovação dos alunos com rendimento abaixo do esperado – sem políticas específicas de intervenção e aceleração – não garante que o direito à aprendizagem se efetue, por outro a reprovação tende a conturbar ainda mais sua trajetória escolar. Nos casos mais graves, levados a refazer o ano escolar nas mesmas condições que levaram a reprová-los, os alunos acabam por abandonar a escola, o que também é uma problema grave no País. Só na faixa etária ideal do ensino médio, de 15 a 17 anos, temos 1,3 milhão de jovens que deixaram a escola sem concluir os estudos; destes, 52% não concluíram sequer o ensino fundamental. Os dados são de um estudo do Instituto Unibanco lançado em 2016.

Outro impacto negativo da reprovação e da evasão, já muito estudado, são seus custos econômicos. Dados preliminares de uma pesquisa realizada por Fundação Brava, Insper, Instituto Ayrton Senna e Instituto Unibanco apontam que os custos anuais de termos jovens de 15 a 17 anos fora da escola são quase equivalentes ao valor investido atualmente pelo País em ensino médio. Somadas as perdas pessoais dessa população, que tem rendimento salarial menor, às perdas sociais, que abarcam queda de arrecadação e aumento de gastos com saúde e segurança pública, os prejuízos chegariam a R$ 49 bilhões/ano. Atualmente, o valor investido pelo País em ensino médio é de R$ 50 bilhões, segundo o Ministério da Educação.

Mas se há anos as pesquisas mostram que a reprovação tende a ter mais efeitos negativos que positivos, por que ainda reprovamos tanto no Brasil? Parte do problema está claramente relacionada à falta de investimentos para garantir condições adequadas de aprendizagem. Por outro lado, pesquisa recente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), realizada com uma amostra de 5.500 professores da educação básica, joga luz em outro aspecto da questão, este de cunho cultural, ou seja, relacionado ao conjunto de crenças sobre reprovação, justiça e avaliação que circulam em nossa sociedade e também influenciam nossos professores.

Um dos principais achados é que, embora 77,8% dos participantes não tenham posição clara sobre o tema, a adesão à crença na reprovação tende a ser acompanhada por forte adesão a uma concepção meritocrática de justiça educativa. Nesse conjunto de crenças, os fatores sociais que influenciam o aprendizado – amplamente demonstrados pela pesquisa científica – não são considerados como geradores de diferenças de desempenho escolar. Assim, o acesso ao conhecimento é visto unicamente como fruto do talento e, especialmente, apenas do esforço individual. Por isso, para os professores que aderem à visão meritocrática, a avaliação tende a ser uma forma de exercer poder disciplinar; consequentemente, a reprovação acaba por assumir uma natureza moral – é uma espécie de “castigo” – e, assim, quanto mais cedo ela ocorra, mais precocemente levaria o aluno a entender que se deve esforçar mais para aprender.

Por outro lado, os professores que consideram os impactos da origem social, do capital cultural e de desigualdades de gênero e raça no processo de aprendizagem tendem a assumir uma visão corretiva de justiça e a ver a avaliação como um processo formativo. Os docentes mais próximos a essas crenças tendem a ser menos favoráveis à retenção, especialmente se estiverem bem informados sobre pesquisas científicas a respeito dos efeitos da reprovação.

Em suma, essa associação inadequada entre reprovação e melhoria do aprendizado se deve a uma cultura incorporada no cotidiano escolar e no imaginário social. Uma mudança efetiva dessa cultura dependerá de mais investimentos em formação inicial e continuada de professores e gestores e em condições pedagógicas, como a redução do número de alunos por turma, para que a comunidade escolar não só tenha acesso a evidências científicas sobre os malefícios da reprovação, como também tenha condições de dar apoio aos alunos com diferentes ritmos de aprendizagem.

O acesso a pesquisas e a informações qualificadas também é fundamental para que a sociedade como um todo possa olhar mais criticamente para os resultados de avaliações externas como o Pisa e a Prova Brasil, cobrar a ampliação e a melhoria na gestão dos investimentos na educação e entender que, numa sociedade como a nossa, a justiça não reside na igualdade de tratamento entre desiguais, mas na correção das disparidades. Somente assim será possível avançar na construção de uma escola mais inclusiva, em que nenhuma criança ou nenhum jovem fique para trás.

* MARIA ALICE SETUBAL É SOCIÓLOGA, EDUCADORA E DOUTORA EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO, PRESIDE OS CONSELHOS DO CENPEC E DA FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL

Falta de paciência com os filhos

Precisamos de mais calma ao interpretar nossos filhos – Rosely Sayão – FSP

2/05/2017 02h00

 Ninguém falou que ter filhos seria fácil, e, na atualidade, as dificuldades crescem dia a dia. Os pais estão submetidos a tantas pressões, demandas e valores sociais, que a lida com os filhos tem se tornado, para muitos, tarefa das mais angustiantes.

O estilo desvairado de vida que adotamos rouba muito de nosso tempo e faz com que mães e pais tenham cada vez menos paciência com crianças e adolescentes. E quem tem filhos sabe que paciência é uma das qualidades mais exigidas no convívio com os mais novos.

Muitos adolescentes e crianças têm ganhado pequenas batalhas que travam com os pais, boa parte delas a contragosto destes, por um único motivo: falta de paciência. “Quantas vezes terei de repetir a mesma coisa a meu filho?” Essa é uma pergunta de pais que ouço com muita frequência. Sempre dou a mesma resposta: por mais ou menos 18 ou 20 anos.

À falta de paciência para aguardar o desenrolar do desenvolvimento dos filhos, que não costuma ocorrer de modo linear, alia-se uma característica de nosso tempo, chamada de medicalização da vida, para complicar mais o trabalho dos pais.

Medicalizar a vida significa transformar questões que não são médicas em doenças ou suspeitas da presença delas. Darei alguns exemplos.

A mãe de uma garota prestes a completar cinco anos observou pequenos machucados na filha. Foi conversar com a professora da menina e ouviu que os arranhões e marcas de batidas tinham sido resultado de brincadeiras e interação da criança com a natureza. Vamos lembrar que, nessa idade, a criança ainda não tem total controle sobre seu corpo. Mas essa mãe não ficou satisfeita com a resposta e procurou um psiquiatra, por acreditar que a filha estava tentando praticar automutilação!

Os pais de um adolescente, que prefere ficar em casa lendo ao invés de sair, que não é muito procurado pelos colegas, que acha uma bobagem participar de redes sociais –sim, eles existem!– e que é tímido, passaram a achar que o filho tem características autistas.

Um último exemplo ilustrativo dessa questão: uma adolescente de 15 anos teve o primeiro namoro, que durou quase um ano, rompido. O ex-namorado disse a ela que queria curtir mais a vida e que o compromisso com ela o impedia. Uma semana de muito choro da garota e isolamento no quarto foi o suficiente para a mãe acreditar que a filha estava “profundamente” deprimida e que poderia tentar o suicídio. Perder um amor é sofrido, doloroso, mas faz parte da vida.

Precisamos ir com mais calma na interpretação dos comportamentos de nossos filhos. Muitas vezes, um cachimbo é apenas um cachimbo, como me lembrou uma amiga.

Para isso os pais precisam, primeiramente, ter paciência para observar melhor o filho durante um bom período. Devem, também, entender o contexto daquele momento da vida dele para identificar motivos para seu comportamento atual.

E sempre ajuda lembrar que todos nós temos nossas particularidades, nossas características pessoais frente à vida. Os mais novos ainda estão desenvolvendo isso, adaptando-se às reações que apresentam frente aos problemas que enfrentam. E para que possam se sentir apoiados pelos pais, estes precisam ser capazes de lhes transmitir segurança e afeto. Nada mais…

Repensar ou transformar?

“Repensar” a educação ou transformá-la? | Outras Mídias – Outras Palavras

– 23 de agosto de 2012

Como são aborrecidos os estudos que falam eternamente em “reformas” e “desempenho” — mas não se dão conta de que o modelo iluminista está superado, e já há formas reais de ultrapassá-lo

Por Alexandre Sayad, no Portal Aprendiz

“Ser” é melhor que “pensar”. Assim como “fazer” vale mais que “pensar”. Sinto um misto de preguiça e frustração quando leio artigos sobre educação clamando para que a velha escola seja repensada – excitados pelas avaliações frustrantes do Ideb . Um exercício meramente ególatra.

A escola é repensada continuamente desde que o modelo iluminista, e posteriormente fordista e politécnico, de ensino e currículo se fizeram presente. São toneladas de pesquisas e teorias forjadas na solidão das salas de universidades. O universo da educação formal, e das faculdades de pedagogia, é majoritariamente composto por pensadores e pesquisadores. Pensar e repensar são suas especialidades. Transformar, não. Eis a questão.

Por exemplo, o MEC propôs semana passada para o Ensino Médio algo prosaico em termos de pensamento, mas inovador na prática: um modelo matricial, e não curricular de ensino. Isso significa que as disciplinas se mesclariam estimulando a elaboração de projetos interdisciplinares pelos alunos. Ora, a chamada “pedagogia de projetos” é algo criado por John Dewey no começo do século passado! Colocá-la em prática é a grande novidade – pensá-la, não.

O Schumacher College, em Londres, e a Oregon Episcopal School, nos arredores de Portland (EUA) não têm currículo há muito tempo. Trabalham por projetos e estão entre as instituições mais renomadas e respeitadas do mundo. No Brasil, ignorado pela grande mídia, o tal Ensino Médio Inovador já está presente desde 2009 em mil escolas com Ideb abaixo da média.

Fico menos animado ainda quando percebo que o PNE (Plano Nacional De Educação), algo elementar para a melhora do ensino, está com votação truncada na Câmara e que os sindicatos já chiaram quando souberam da proposta do MEC. Começa a ir por água abaixo uma implementação que poderia, juntamente com outros ajustes, dar uma guinada no Ensino Médio a favor dos que têm mais interesse nele: o estudantes.

Por trilhas alternativas, projetos bem implementados de produção de comunicação por alunos em escolas têm o poder de transformá-las. Esses são realidade em mais de três mil escolas públicas do Brasil – não vi até agora um aferimento de qualidade por parte do MEC ou institutos ou uma reportagem na grande mídia sobre eles.

A última pesquisa que tive notícia, o Aprova Brasil, do Unicef, mostrou que escolas que se aproveitavam do fazer comunicativo obtinham Ideb acima da média porque estimulavam a participação da comunidade nas decisões escolares.

Nesses casos, não se trata de fórmula mágica ou grandes exercícios mentais. Trata-se de aproveitar o que de melhor o estudante faz fora da sala de aula, vídeos e textos com celulares e redes sociais, e colocá-los a favor da aprendizagem. Nesse sentido, uma recente pesquisa nos Estados Unidos surpreendeu: segundo a Child’s Mercy, 83% dos pais entrevistados, apesar dos receios recorrentes das redes sociais, aprovavam seu uso como importante na educação dos filhos.

Repensar a escola não causa impacto algum à educação. Refazê-la, sim; e isso implica em experimentar. Para medir os resultados são necessários anos, talvez gerações, afinal impacto educacional não se mede da noite para o dia. E uma escola experimental pode facilmente ser refutada pelo seu público, em geral conservador e avesso a experimentalismos – mas que adora “repensar” a educação de seus filhos.

A pergunta que fica é: estamos realmente prontos para uma nova escola, na prática?

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