A tecnologia não faz mágica em sala de aula

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Última Atualização – 31/05/2012

“Tecnologia não faz mágica em sala de aula”

Por Renato Deccache – renato.deccache@folhadirigida.com.br

Crédito: Divulgação

Daniela Haetinger: é preciso criar espaço para o aluno pensar e fazer acontecer

Com crianças e jovens cada vez mais familiarizados com as mídias digitais, cresce a necessidade de as escolas investirem na modernização de suas instalações e recursos pedagógicos, até para ter condições de tornarem-se mais atrativa para os alunos. Porém, só adquirir equipamentos como computadores, notebooks, tablets, datashow, entre outros não basta para dinamizar a prática pedagógica.

Para a escritora Daniela Haetinger, especialista em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), muitas vezes, os recursos tecnológicos estão disponíveis mas, ainda assim, não contribuem para um ensino de melhor qualidade. 

“Mesmo quando há acesso, nem sempre as ferramentas digitais estão inseridas em um contexto de educação centrada no aluno, em um espaço de cooperação e de construção coletiva de conhecimentos, um contexto de verdadeiro protagonismo da aprendizagem.” 

Autora, ao lado de Max Haetinger, do livro Aprendizagem Criativa – Educadores Motivados para Enfrentar os Desafios do Novo Século (Editora WAK), Daniela Haetinger salienta que alguns recursos característicos dos dias de hoje, como as redes sociais, podem contribuir e muito para motivar os alunos a se sentirem parte do processo de ensino-aprendizagem.

“As mídias sociais, por exemplo, são bastante estimulantes para eles. São ferramentas de alto poder interativo e cooperativo, espaços onde todos falam e escutam, veem e são vistos. Ninguém mais quer ficar sentado, passivo, ouvindo, distante…”, ressalta a educadora, que é de designer instrucional e, entre outras tarefas, dedica-se ao desenvolvimento de metodologias de ensino e à produção de conteúdo, materiais didático-pedagógicos e objetos de aprendizagem para educação a distância. 

Nesta entrevista, ela analisa as possibilidades do uso das tecnologias na aprendizagem, comenta os fatores que fazem com que o ensino não melhore mesmo com a utilização de recursos tecnológicos, explica de que forma estes equipamentos podem ou não despertar o interesse dos estudantes, avalia o quadro geral da educação a distância e fala sobre o problema que, a seu ver, interfere mais na aprendizagem dos alunos. 

A especialista, que é licenciada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), desenvolve pesquisas relacionadas ao uso da tecnologia e novas mídias na educação e à construção de redes de aprendizagem. Ela também fala sobre a postura que deve ter o professor em um processo de ensino mediado pelas tecnologias educacionais. 

“Hoje, o papel do professor é o de incluir – e, principalmente, o de se incluir -, o de colaborar na descoberta da informação e dos interesses, de mostrar possibilidades e caminhos, de mobilizar, instigar, facilitar e de potencializar a aprendizagem”, salientou Daniela Haetinger.

FOLHA DIRIGIDA — Você é especialista no uso de tecnologia e novas mídias na educação. A seu ver, as escolas, de maneira geral, têm usado de forma eficiente esses recursos para o aprendizado?
Daniela Haetinger — Muitas escolas têm ótimas experiências a relatar, por utilizarem a tecnologia de forma positiva, como um recurso didático-pedagógico integrado aos interesses e às necessidades dos alunos. Porém, tantas outras escolas precisam evoluir nesse sentido, e principalmente as da rede pública, que ainda são bastante deficitárias em relação ao acesso à tecnologia. 

— Tem sido comum, nos últimos anos, os governos, nas mais diferentes esferas, comprarem computadores e outros recursos tecnológicos para incrementar o aprendizado dos estudantes. Isto por si só, adianta? Apenas promover o acesso é suficiente para que a qualidade do trabalho educacional melhore?
Mesmo quando há acesso, nem sempre as ferramentas digitais estão inseridas em um contexto de educação centrada no aluno, em um espaço de cooperação e de construção coletiva de conhecimentos, um contexto de verdadeiro protagonismo da aprendizagem. Isso não depende de o computador estar ou não na escola, mas sim do espaço e o papel do jovem, do professor e dos conteúdos em sala de aula; depende do fazer educativo como um todo e da proposta de ensino. Queremos educar jovens que usam o computador, que dão respostas prontas, que se saem bem em uma prova de vestibular? Ou queremos que façam e pensem por si próprios, que saibam construir coletivamente e viver em rede?    
      
– Que tipo de tecnologias as escolas já sabem usar no processo de ensino? E quais com quais os professores ainda têm muita dificuldade? 
Qualquer tecnologia pode ser usada. Se o professor não sabe como usá-la, pode ter certeza de que seus alunos têm muito a lhe ensinar… Os nativos digitais encaram com naturalidade esse tipo de tecnologia, eles não se intimidam em explorar, criar e compartilhar. Já os professores, principalmente aqueles com mais de 30 anos, ainda estão aprendendo a participar da cultural digital. Como comentei antes, a questão não é a tecnologia por si própria, mas sim o espaço que damos para o aluno pensar e fazer acontecer. Podemos ensinar e aprender juntos, nosso tempo não é de papeis definidos e estanques – quem aprende e quem ensina. Isto, se já não é, deveria ser coisa do passado. 

– Muitos dizem que uma das vantagens do uso da tecnologia é despertar maior interesse por parte do estudante, em geral, dos jovens. Mas, a tecnologia tem realmente esse poder? Ou que mais contribui para isso, no final das contas, é o trabalho do professor? 
A tecnologia não faz mágica em sala de aula. Tudo depende de o que fazemos ou propomos com ela. É chata uma aula prioritariamente expositiva, sem atividades significativas ou desafiadoras para os jovens, seja uma aula expositiva na lousa, no flipchart ou no datashow. Os alunos querem experimentar, descobrir e fazer coisas diferentes, atividades múltiplas, e querem estar em contato, socializar suas experiências, se encontrar e reconhecer o seu espaço no mundo. As mídias sociais, por exemplo, são bastante estimulantes para eles. São ferramentas de alto poder interativo e cooperativo, espaços onde todos falam e escutam, veem e são vistos. Ninguém mais quer ficar sentado, passivo, ouvindo, distante… 

– A seu ver, qual o papel do professor no ensino, com a introdução das novas tecnologias em sala de aula? 
Resumidamente, posso dizer que as tecnologias digitais nos permitem acessar pessoas e todo tipo de informação e conteúdo. Nesse mundo de informação fácil, acessível, veloz, de dados e de relações circulantes e não hierarquizadas, o professor deixou de ser aquele velho “sabe-tudo”. Muitas vezes, para o aluno, ele parece não saber nada, ele “está mesmo por fora”. Hoje, o papel do professor é o de incluir – e, principalmente, o de se incluir -, o de colaborar na descoberta da informação e dos interesses, de mostrar possibilidades e caminhos, de mobilizar, instigar, facilitar e de potencializar a aprendizagem.  

– Uma de suas linhas de trabalho é a produção de conteúdo e de materiais didático-pedagógicos para a Educação a Distância. Como você avalia, em linhas gerais, a qualidade do material didático produzido no Brasil, para a EAD? Eles efetivamente exploram as possibilidades que a modalidade de ensino a distância pode trazer ou são meras adaptações do conteúdo das aulas presenciais para o formato digital? 
Com a grande retomada da educação a distância na última década, as experiências são as mais diversas e controversas. Existem programas que apenas vedem apostilas via internet e colocam um único tutor ou professor para “tirar dúvidas” de 400, 500 alunos – eu chamaria isso de “educação bem distante de quem quer aprender” ou até de EAD da idade da pedra. Estamos na era digital, contamos com inúmeros recursos para interagir com qualidade e promover a socialização entre os alunos, propor que eles sejam autores e produzam coletivamente, e isso não acontece quando a proposta de ensino se fundamenta em ler apostilas e responder perguntas individualmente. Falta emoção e afeto, partilha, falta o reconhecimento que a troca com os colegas permite; falta cooperação. Claro que existem instituições e metodologias que conseguem promover toda essa troca, mas isso ainda não é uma regra.      

– É viável trabalhar com o formato a distância na educação básica? De que forma? 
Acho que seria muito difícil trabalhar a educação básica totalmente a distância, tratando-se de crianças, é claro. Entre adultos que não tiveram acesso à escola básica, isso já é uma realidade.

– Como você avalia o crescimento da Educação a Distância no Brasil, nos últimos anos? Ele ocorreu da forma como o país necessita ou a expansão rápida comprometeu a qualidade? 
O crescimento foi incrível na última década. Só para dar uma ideia: em 2004 tínhamos em torno de 300 mil alunos na modalidade de EAD, em 2008 já eram mais de um milhão, e em 2010 mais de 2,5 milhões – imagine! A rapidez desse crescimento não corresponde necessariamente ao comprometimento da qualidade. Depende do caso e de como se faz essa educação. O que compromete a qualidade na EAD são as propostas de ensino embasadas no paradigma da transmissão de conteúdos e da reprodução (ao invés do paradigma da comunicação, da sociabilidade e da ação cooperativa ou em rede); propostas que desconsideram o perfil cognitivo e as necessidades de cada aluno; ou ainda a exploração do mercado e educação como negócio, no sentido de se encarar a EAD apenas como forma de reduzir custos e lucrar com pacotes prontos vendidos em série.

– Você também estuda a cooperação na formação de redes de aprendizagem. De que forma essas redes podem contribuir para os alunos aprenderem melhor? 
Comunicação, diálogo, interconexão, socialização, compartilhamento, cooperação, tudo isso constrói e reflete a vida em rede, pressupõe afeto, trocas, o despertar e o reconhecer interesses, manifestações de vontades, diversidade de opiniões, reciprocidade, tudo isso potencializa a aprendizagem em qualquer ambiente ou modalidade de ensino (presencial ou a distância). 

– Se um professor, hoje, lhe pedisse orientações para criar uma rede de aprendizagem junto a seus alunos, que conselhos daria a esse profissional? 
Promova, convide, participe, permita, escute, aprenda com os seus alunos e trate-os de igual para igual. Lembre-se de que uma rede são milhares de nós interligados, interdependentes, o mínimo movimento de cada nó afetando todos os demais, todos com o mesmo poder de interação, todos gerando e vivenciando fluxos constantes de informação, sociabilidade e solidariedade.  

– A seu ver, qual o maior obstáculo para o aluno aprender, nos dias de hoje? Por quê? 
Depende do contexto da educação, da faixa etária, do propósito do ensino e da necessidade, desejo ou relevância do aprender (motivação). De modo geral, acho que os maiores obstáculos sejam a falta de aplicação prática dos conteúdos ou a ausência de significado para quem aprende (É importante aprende tal coisa? Eu preciso ou quero aprender isso? Qual a utilidade?), e a falta de emoção, afeto, apoio mútuo e cooperação.

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