Bate-papo virtual é igual a conversa?

São Paulo, terça-feira, 01 de maio de 2012Equilibrio

 

 

OUTRAS IDEIAS

MICHAEL KEPP – mkepp@terra.com.br

Conectar ou conversar?

A conexão virtual nos dá a ilusão de controle à distância, mas nem sempre é possível evitar mal-entendidos

Sem celular para mandar uma mensagem de texto ou um tuíte, eu uso o e-mail para me conectar com os amigos. Mas conectar-se em vez de conversar pode ser um perigo.

Os internautas podem trocar informações simples -marcar encontros ou mandar um abraço virtual a alguém antes do vestibular- sem arriscar nada. Meus riscos aumentam quando e-mails viram monólogos que eu edito até achar que tenho controle sobre a mensagem. Então aperto “enviar”. Meus amigos fazem o mesmo.

Mesmo assim, ficamos chocados quando acontecem mal-entendidos. Por exemplo, é muito mais difícil de interpretar o tom de palavras impressas que o das palavras faladas. Assim, palavras em letras GARRAFAIS soam ameaçadoras e frases em tom de brincadeira podem parecer sérias. Por isso aprendemos “cibernormas”, como nunca escrever uma palavra inteira em maiúscula num e-mail e colocar o símbolo;-) no final de frases ditas como brincadeira para evitar mal-entendidos.

A primeira vez que eu, retardado digital, recebi um e-mail com o símbolo;-), não enxerguei nenhum rostinho sorridente que piscava. Num e-mail, acusei o amigo que me enviara a mensagem de me ofender. Ele me respondeu irado, dizendo que o símbolo deixava claro que sua intenção não era séria. Foi nossa primeira briga em 20 anos, graças ao milagre da comunicação chamado internet.

Há pouco tempo, uma pessoa próxima respondeu por e-mail a uma crônica minha na Folha -sobre a diferença entre ser precavido e preconceituoso-, que eu tinha enviado a ela e a 600 outras pessoas.

Por e-mail, acusou-me de ser extremamente preconceituoso com ela. E eu a acusei de aproveitar uma oportunidade de criticar minha crônica para me criticar pessoalmente. Digitalizamos esses desabafos porque a conexão virtual nos dá a ilusão de intimidade e controle à distância. Mas é uma mídia “quente” em que acusações mútuas viram uma bola de neve.

Conversar é um meio de comunicação mais “morno”. Apenas em diálogos cara a cara, em tempo real, é possível trocar ideias de maneira sincrônica, interromper, enxergar (no rosto do outro) que você ofendeu, ouvir a frase mágica “o que você disse me magoou”, pedir desculpas e mostrar (em seu rosto) sua sinceridade. Conversar revela quem você é a você mesmo e ao outro. Expor-se on-line propicia a fantasia de que o ciberespaço lhe dá um lugar para se esconder.

*MICHAEL KEPP,* jornalista americano radicado há 29 anos no Brasil, é autor do livro “Tropeços nos Trópicos -crônicas de um gringo brasileiro” (Record)
www.michaelkepp.com.br

 
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