Como combater a violência escolar?

Violência na escola: como combater esse mal?

Por Joyce Trindade – joyce.trindade@folhadirigida.com.br

Crédito: Ariane Nascimento

Imagem de professores em evento, na UFRJ, para discutir a questão da violência nas escolas: profissionais, muitas vezes, não estão preparados para lidar com alunos agressivos.

Violência. Mesmo sem saber a definição exata do termo, qualquer pessoa que escute essa palavra entende o que ela significa. Isto porque todos vivenciam cenas de violência no dia-a-dia. Na televisão, nos filmes, na rua, no trânsito, no trabalho, na família, dentro de casa e agora, também dentro de sala de aula.

A violência, tão presente e naturalizada na sociedade, já afeta as escolas e as situações nas quais alunos são violentos uns com os outros e com seus professores multiplicam-se a cada dia. Um mal que, para ser resolvido, ou pelo menos, amenizado, precisa do empenho de todos os envolvidos nesse processo.

Embora as causas sejam muitas e a situação seja complexa, as soluções parecem simples: relações mais afetuosas, ensino baseado no carinho, na proximidade e na intimidade. Porém, a prática dessas novas formas de ensinar exigem muito dos educadores. Além de uma formação mais humana, cabe a eles dedicação, conhecimento e criatividade.

Para a professora da Faculdade de Educação da UFRJ e coordenadora do Laboratório do Imaginário Social e Educação (Lise), Nyrma Azevedo, as soluções para frear a violência em sala de aula dependem de um conjunto de ações que deve ser trabalhado não somente pela escola, mas por todas as camadas da sociedade.

A doutora em educação e professora do mestrado da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), Marsyl Bulkool Mettrau, concorda. Para ela, a violência não se limita aos muros dos colégios. “Este fenômeno é um reflexo do que vive toda a sociedade. A violência está em todo o lugar: na família, nas ruas, na vida de cada um”, afirma.

Para minimizar o perigo imposto aos estudantes e educadores, muitas são as instituições de ensino que implantam equipamentos de segurança como roletas nas entradas, câmeras de vigilância, detector de metais, cercas elétricas, entre outros recursos, além de contratar porteiros e vigilantes.

Segundo as especialistas, o aparato pode ajudar, mas não é – e nem pode ser – uma solução definitiva para trazer a paz para as salas de aula. “Esses equipamentos funcionam até um certo ponto, mas não resolvem nada. Agem na contenção”, alerta Marsyl. Já para Nyrma, a tecnologia é instrumento e não faz nada sozinha. “É preciso planejamento para que se use essas ferramentas da maneira certa. E elas devem complementar as ações pedagógicas”.

É preciso mais atenção

à formação dos educadores
As professoras discutiram o assunto, no último dia 27, no I Simpósio Internacional sobre “Educação, Violência e Contemporaneidade”, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Juntamente com a professora do Instituto de Psicologia da UFRJ, Nilma Almeida, as especialistas falaram sobre o “Imaginário social e violência na educação: o que a escola imagina?”.

Nilma Almeida alertou para o fato de que hoje em dia, a maior parte das crianças fica muito tempo sozinha e em contato com realidades violentas. Muitas passam parte do dia assistindo a desenhos, filmes e novelas que mostram cenas de violência como algo comum, cotidiano. Dessa forma, afirma a psicóloga, a criança vê a violência como algo natural, e que não gera danos, punições.

Para a coordenadora do Laboratório do Imaginário Social e Educação (Lise), a formação dos professores, antigamente, era mais completa e preparava o profissional para uma formação mais humana. “A escola não deve ser só um lugar onde se adquire a afirmação de um status social, mas sim, onde se pratica o desenvolvimento humano. Esse entendimento precisa estar presente no processo pedagógico. E a formação do professor ainda deixa muito a desejar nesse sentido”.

Nyrma Azevedo defende que a Psicologia esteja mais presente na formação dos professores. Ainda de acordo com ela, muito tem se falado em novas formas de aprendizagem, através do afeto, do diálogo. “Mas não estamos sabendo desenvolver, em sala de aula, a passagem das análises reflexivas e críticas para a capacidade criadora, para a prática”, lamenta.

Criatividade e conhecimento:
chaves para uma educação mais humana
A educadora Marsyl Bulkool acredita que a criatividade é a melhor ferramenta para, se não acabar, pelo menos, controlar esse mal. Mas é preciso pensar a criatividade como processo e não como produto. “A criatividade deve ser um processo do pensamento onde você usa sua imaginação para criar novas situações e a partir dessas situações, transformar as antigas”.

Segundo ela, se o professor acredita que há alguma saída, alguma forma de esta situação mudar, fica melhor para ele, e mais possível dele sobreviver na própria profissão. Para a professora, os docentes estão sofrendo vários tipos de desgaste, porque o mundo está desgastado. 

“Por isso, é preciso ser criativo, encontrar soluções diferentes para estas situações. Faz-se necessária uma educação para o mundo moderno, onde se aprenda não só os conteúdos, mas onde se aprenda a conviver, a criar junto. Trabalhar o coletivo é muito importante”.

A mesma opinião tem a professora da Faculdade de Educação da UFRJ, Nyrma Azevedo. De acordo com ela, não só os professores, mas diretores e coordenadores devem ter uma boa gestão, com clareza de objetivos, e as metas devem ser colocadas e buscadas em conjunto.

“Todos os profissionais devem trabalhar em prol do mesmo resultado. O modelo participativo faz com que todos se engajem. É difícil, mas é preciso entender que todas as pessoas são educadores. Educador é alguém que tem outra pessoa ao lado, que pode ser exemplo ou não para ela”, explica.

O conhecimento do lugar, das pessoas e do ambiente onde os educadores trabalham, segundo as especialistas, também é fundamental para o sucesso de uma cultura de paz nas escolas. “O professor tem que conhecer seus alunos e ter sensibilidade para saber que não existe fórmula mágica”, diz Nyrma. 

Marsyl completa: “O que pode ajudar muito é que os diretores, coordenadores e professores conheçam a comunidade onde estão inseridos. É ali que estão, não só os alunos, mas seus pais, mães, irmãos e tios. Acho que uma pedagogia criativa, que vá além dos conteúdos, e passe pela convivência pode ser transformadora”.

Além disso, a doutora em Educação defende que todas as escolas possuam, em seu currículo pedagógico, a disciplina de Filosofia, desde os primeiros anos. Segundo ela, dessa forma, as crianças e os jovens têm acesso a conceitos sobre certo e errado, bem e mal. 

O importante é que as futuras gerações e aqueles que já estão se formando cresçam com novas perspectivas. Se a criatividade é a busca de alternativas, não se pode generalizar as soluções. Cada localidade, cada ambiente, cada grupo tem características próprias, e seus próprios problemas e conflitos. Por isso, com conhecimento, pesquisa e dedicação, cada um deve buscar uma saída diferente, própria e de acordo com sua realidade.

A seu ver, a violência está cada vez 

mais presente no dia a dia das escolas?
“Trabalho com educação há vários anos e resolvi fazer a graduação para oficializar essa experiência. Participei, por 15 anos, de um centro de treinamento de missionários que recebia jovens do mundo inteiro, cujos pais vinham ser missionários no Brasil. Dava aulas para crianças cristãs. Por isso, nunca enfrentei uma situação de violência em aula. Nunca atuei em escola pública, mas teria medo sim, se tivesse que ir para uma região de nível sócio-econômico mais baixo. Tenho amigas que trabalham em ambientes assim e elas adotam um comportamento todo diferenciado para lidar com essas situações. Estamos em uma sociedade decadente de valores morais e, apesar de muitos serem contra, a religião suporta essa moralidade social.”
Vânia Maria de Carvalho, aluna do 1ª período do curso de 
Pedagogia e professora 

“Já vivenciei muitas situações de violência. Às vezes, até no olhar, a gente consegue perceber que a criança pertence a uma realidade violenta. Recentemente, recebi um estudante vindo de outra escola e percebi no olhar e no comportamento dele, que ele é uma pessoa violenta. A forma como ele fala com os colegas, como ele discute com o professor. No início da minha carreira eu me sentia ameaçada com isso, mas agora não. Quando esse tipo de coisa acontece procuro me aproximar da criança, conhecer um pouco mais a realidade dela. Acho que, quando a gente se aproxima dos nossos alunos, fica mais fácil compreendê-los e fazer um bom trabalho. Quando o professor ignora e passa por cima da realidade do aluno, acaba gerando mais violência.”
Isabelle Lins Carvalho – professora da rede estadual do Rio de Janeiro

“Já presenciei diversas cenas de violência, especialmente porque atuo em uma área carente. Muitas vezes, o aluno nem precisa falar com você de forma agressiva, mas o jeito como ele te olha e se comporta já intimida. E isso, infelizmente é comum nas escolas. Se eu disser que não sinto medo, estaria mentindo. Qualquer profissional tem medo da violência, principalmente quando se lida com a formação humana, como é o nosso caso. Isso nos intimida muito. Mas, já existem várias iniciativas para que essa realidade mude. Na Uerj, temos discutidos muito essa questão na formação do professor, para que ele saia com seu diploma, sabendo o que vai encontrar e minimamente preparado para lidar com esse problema.”
Niely Freitas – professora da rede privada de ensino e da formação de professores do núcleo de educação a distância da Uerj

“Cenas de violência acontecem a todo momento. Violência não é só quando dois estudantes brigam, mas todo ato que gera conflito é uma violência. Quando reclamamos com os alunos, quando o estudante chega tarde e não consegue entrar no colégio, sempre há problemas. Mas precisamos enxergar essa realidade com uma nova ótica. Com a ótica do diálogo, da conversa, da proximidade. Eu coordeno um grupo de orientadores da secretaria de educação do município de Mesquita e tenho percebido uma preocupação cada vez maior com esses problemas. Nos últimos anos, tivemos governos sensíveis a essa causa. Por isso, acredito que a tendência é que essa situação mude para melhor.”
Elizabete Amaro – professora da rede estadual do Rio de Janeiro e 
orientadora educacional

“Sou professora de Filosofia e de Artes do ensino médio. Ultimamente as cenas de violência estão cada vez mais comuns. Porém, me preocupa mais perceber o mundo no qual os jovens estão vivendo. Não é a violência dentro de sala de aula que me incomoda, mas saber que a violência está generalizada e é muito mais complexa. Refletindo sobre essa questão, eu e uma colega da rede municipal lançamos o livro “Violência das escolas: desafios para a prática docente?”. Acho que este é um desafio não só para os docentes e os discentes, mas para todas as pessoas. Ninguém está preparado para lidar com a violência. Essa situação pode melhorar, mas não acredito que essa mudança venha da sociedade, mas sim da própria escola.”
Sônia Lucas, professora da rede estadual do Rio de Janeiro

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