A escola está repleta de atitudes preconceituosas

Última Atualização – 03/04/2012

“A escola está repleta de atitudes preconceituosas”

Por Renato Deccache – renato.deccache@folhadirigida.com.br

Crédito: Tina Coelho

Teuler Reis: “O professor precisa desligar o ‘automático’ que está ligado e resgatar o ‘manual.’ Isso significa olhar seu aluno de uma maneira mais humana.”

Um dos assuntos mais polêmicos dos últimos anos, na área educacional, foi a decisão do Ministério da Educação (MEC), no ano passado, de distribuir um kit para combate à homofobia nas escolas. Poucos meses após anunciar a medida, o ministério recuou e decidiu cancelar o envio do material. Com ou sem kit anti-homofobia, a principal questão continua: como combater a discriminação e o preconceito no ambiente escolar?

Para o prefessor Teuler Reis, autor do livro Educação e Cidadania: A Batalha de Uma Educação Comprometida (WAK), o caminho é um ensino que abra espaço maior para os valores e a ética. Para ele, o preconceito está no dia a dia da escola e, por isso, é fundamental uma formação de desenvolva nos estudantes o respeito e a compreensão da diversidade.

“Banalizamos a educação. O educar para vida perdeu o lugar de destaque nas famílias e nas escolas. Poucas são as escolas realmente comprometidas com a formação para cidadania e valores humanos. Grande parte das escolas pensam em colocar alunos nas faculdades e em captar novos alunos. Esse é o foco da educação atual”, comentou o educador que, nesta entrevista, aborda temas como estabelecimento de uma cultura de paz nas escolas, o que é fundamental na hora de lidar com o preconceito na escola, as dificuldades que as instituições de ensino têm para lidar com esse problema, o que ele considera que falta nas políticas educacionais, entre outros aspectos

FOLHA DIRIGIDA – O MEC suspendeu a distribuição de um kit preparado para ser usado no combate à homofobia nas escolas. O que o senhor achou dessa medida?
Teuler Reis – De certa forma foi melhor assim. Colocar um material na mão dos professores e não oferecer capacitação para o uso correto poderia ser um desastre. Infelizmente as decisões, às vezes, são precipitadas e acontecem com uma série de equívocos. Um trabalho dessa natureza deve iniciar-se com os próprios professores. Um “kit”, ou cartilha, como preferem alguns, só terá sentido quando antes for feito um trabalho com todos que atuam na educação de crianças e jovens, digo todos, isso inclui até o porteiro da escola. Essa conscientização deve começar na escola. Entregar um kit para uma escola despreparada para lidar com a questão da homofobia não é a solução para os problemas atuais.
 
– A distribuição do kit foi suspensa, porém, o problema permanece. A seu ver, como a escola pode trabalhar para evitar casos de humilhações e agressões a estudantes?
O problema da escola é o problema de toda uma sociedade. Banalizamos a educação. O educar para vida perdeu o lugar de destaque nas famílias e nas escolas. Poucas são as escolas realmente comprometidas com a formação para cidadania e valores humanos. Grande parte das escolas pensam em colocar alunos nas faculdades e em captar novos alunos. Esse é o foco da educação atual. Enquanto isso as crianças se veem carentes de uma formação humana capaz de conter seus impulsos e de simbolizar a dor da vida. Podemos sim trabalhar casos de humilhações e agressões dentro da escola. Basta começar levar a sério as propostas colocadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais. No livro Educação e Cidadania: A Batalha de Uma Educação Comprometida, aponto as falhas da escola no processo de formação humana. O texto dos PCN’s diz claramente que “as disciplinas devem funcionar como ferramentas para se atingir a cidadania. Estamos muito longe dessa realidade. A escola deveria começar desde cedo a trabalhar as virtudes, os valores. Se assim agissem  teríamos uma sociedade mais justa, menos violenta.
 
– O que é fundamental para criar uma cultura de tolerância nas escolas? Como construir uma diálogo que respeite a diversidade?
A tolerância, como qualquer outra virtude, prudência, justiça, solidariedade, e todas outras, são aprendidas. Se a criança não tiver a chance de aprender, se não encontrar um adulto preparado que toque seu coração e mostre o valor de ser virtuoso, ela não vai aprender. A virtude não brota do nada, ela se aprende. É um apelo emocional que herdamos dos nossos mestres e pais. Poucos sabem mas a palavra virtude vem de virtus, significa excelência. Se queremos ser excelentes devemos buscar as virtudes, devemos investir nisso. Quando você me pergunta como construir um diálogo que respeite a diversidade eu penso ser necessário começarmos a ensinar as crianças e os jovens a dialogar.  

– A seu ver, quais as formas de preconceito mais comuns que existem no ambiente escolar?
Trabalhei muito tempo com crianças e adolescentes. A escola está repleta de atitudes preconceituosas. O corpo, a beleza, condição social, sexualidade, tudo vira palco para as atuações. E o mais triste é pensar que essas crianças aprenderam isso em algum lugar. Os pais geralmente são os modelos. Ainda que de uma forma não intencional eles acabam deixando revelar seus próprios preconceitos. E, o pior preconceito é o velado. 
 
– Por que as escolas têm se mostrado tão impotentes para coibir e evitar casos de humilhação e agressão a estudantes?
A sociedade tirou da escola a credibilidade antes presente. Caminhamos, caso não aja mudanças, para um caos no processo educacional. O aluno já olha para o professor com um atestado de fracasso. Não que ele tenha consciência disso, mas ele aprende cedo na sociedade que vida de professor não é fácil. Os pais se omitem na educação dos filhos, na formação de valores e virtudes e para piorar não deixam a escola fazer seu papel. É triste, mas muitos alunos veem os professores como inimigos, e como não têm limite em casa fazem o mesmo na escola. Visto por outro ângulo a escola não deixa claro para os alunos suas regras, seus limites. Isso banaliza toda referência possível para o aluno.

– De que forma a valorização da ética e dos valores no processo de ensino poderia contribuir para criação de uma cultura de paz e tolerância nas escolas?
Sou defensor de uma educação voltada para ética, para os valores humanos. A Matemática, o Português, a História, são apenas ferramentas para se atingir a cidadania. Precisamos inverter essa ordem. Quando a escola voltar seu olhar para os valores humanos, para ética, para cidadania, estaremos de fato criando adultos dignos, homens de valor. Qual o verdadeiro valor de uma pessoa? Melhor dizendo: para quem você tiraria seu chapéu na vida? Com certeza você pensou em alguém com valores humanos, uma pessoa virtuosa. Esse é o “x” da questão. Precisamos de devolver às nossas crianças o sentido da vida, dos valores humanos. A paz será uma consequência dos nossos atos. 
 
– A seu ver, as escolas, de maneira geral, valorizam a ética e a formação humana em suas propostas pedagógicas? Ou são poucas instituições que atuam desta forma? Por que?
A mudança vem acontecendo, mas, ainda muito tímida. Às vezes, visito escolas com propostas humanas dignas de premiação. Porém, no dia a dia, a coisa funciona diferente. Algumas vezes, são os próprios professores que queimam a proposta. O mau exemplo coloca por terra o esforço de vários. Em meu livro cito vários exemplos de professores pouco comprometidos com a formação humana, com a ética. 
 
– Em seu livro “Educação e Cidadania: a batalha de uma educação comprometida”, o senhor fala sobre a necessidade em haver, por parte do educador, uma atitude mais compreensiva e atual em relação aos seus alunos. Por que o senhor acredita que os professores não têm essa atitude?
Ser educador vai além de ensinar uma disciplina, um conceito. Ser educador é se empenhar em trazer ao mundo um humano. É participar da lapidação humana sem deixar ser complacente. Ser educador é acreditar que por trás de um gesto há algo a mais, e não medir esforços para fazer surgir o melhor. Precisamos compreender melhor nossos alunos. Eles estão carentes de humanos, carentes de sensibilidade para com o outro, carentes de sonhos, de planos, de futuro. O educador é muitas vezes a única chance que uma criança tem na vida. Nem sempre o professor olha seu aluno com olhar de investigação, com olhar de carinho. 
 
– Do que depende essa atitude mais compreensiva dos professores em relação aos alunos? Apenas dele próprio? Das condições do ambientes escolar? Do comportamento dos próprios estudantes?
O professor precisa desligar o “automático” que está ligado e resgatar o “manual”. Isso significa olhar seu aluno de uma maneira mais humana. A escola pode e dever favorecer essa conscientização. A mudança deve partir de todos os lados, mas o principal é discutir que valores a escola pretende trabalhar em seus alunos, o que realmente é importante.

– O senhor viaja pelo Brasil fazendo palestras sobre Educação. Em seu contato com os professores, quais as preocupações e inquietudes mais comuns que eles apresentam?
Eu fico feliz em ver tantos professores mobilizados em mudar esse cenário que vivemos. Por todo canto, por onde passo, encontro pessoas dispostas a agirem em prol da paz, de uma sociedade mais justa. Temos projetos fantásticos por esse Brasil. Mas ainda existe muita resistência em partir para o novo, ainda que esse novo seja milenar, como os valores humanos, as virtudes. Algumas vezes encontro professores angustiados, querem uma solução mágica para os problemas. É muito comum o desejo por uma receita pronta, algo simples e que traga efeitos rápidos. E, faço lembrar, a mudança é lenta. 
 
– Quais os problemas mais frequentes, do ponto de vista educacional, que o senhor pode constatar nos locais em que o senhor visitou para fazer suas palestras? A motivação dos professores? O desinteresse dos alunos? As condições estruturais das escolas?
Sinceramente, para mim o maior problema é professor descomprometido com valores, com a ética e com a educação para cidadania. Basta um professor assim para colocar o trabalho de vários professores por terra.  

– Na sua opinião, o que deveria ser prioridade para melhorar a qualidade da educação no Brasil?
Sem dúvida a formação para cidadania. Parece simples mas não é. O maior objetivo da educação segundo os documentos que regem a educação no Brasil, é formar cidadão. Mas isso está muito distante da realidade. Um bom exemplo é pensar que ser cidadão é viver a partir de deveres e direitos de uma sociedade. Direitos e deveres esses que estão elencados na nossa Constituição Federal. Então, devemos pressupor que o sujeito responsável pela formação de cidadãos deve ter conhecimento da Constituição. Já imagino o que estão pensando, lamentavelmente quase nenhum professor tem conhecimento da Constituição. O dia que a educação priorizar a formação humana, a cidadania, aí sim iremos viver num mundo mais justo, mais humano, um mundo onde o respeito seja o ingresso para vida em sociedade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s