Nem pais, nem alunos

‘A obrigação de curar é do médico’ – O Globo

‘A obrigação de curar é do médico’

Para professor colégios precisam trazer de volta pais de baixa escolaridade

ALESSANDRA DUARTE

Publicado: 25/03/12 – 22h49 Atualizado: 25/03/12 – 22h49 Comentários: 28 Envios por mail: 3 RIO –

Para o professor titular da Faculdade de Educação da USP Vitor Henrique Paro, autor de livros sobre gestão escolar e participação dos pais, a escola pública precisa que, eles próprios, quando alunos, não tiveram uma boa escola.

Como o sr. vê o fato de os professores terem responsabilizado os pais e o próprio aluno pelo não aprendizado dele? VITOR HENRIQUE PARO: Não tem cabimento, a desculpa é esfarrapada. Se o aluno estivesse interessado, não precisaria do esforço do professor. Podemos dizer que 101% da didática é propiciar condições para que o aluno queira aprender. Agora, a escola não é só o professor; tem direção, carteira, biblioteca. Botar a culpa só no professor é muito sério. Mas não se pode é culpar o aluno. A obrigação de curar é do médico, não do doente. Isso seria como o médico reclamar: “vocês só me mandam gente doente”. Nesse ponto, a escola privada não é necessariamente melhor, é que a criança já chega lá com condições mínimas para querer aprender; já chega com o pai letrado, o passeio, a viagem.

De quem é a culpa? PARO: Do sistema de educação e da sociedade inteira. Do mau provimento da educação pelo Estado, e não estamos falando só de baixos salários de professor. Há a infraestrutura das escolas, e há o fato de que o sistema educacional público insiste em formas de ensino de 300 anos atrás, alguém falando e alguém ouvindo, coisa que só funciona com adulto, que já está querendo aprender, mas não com uma criança que precisa construir isso.

Como a escola melhora a relação com os pais? PARO: Fiz uma pesquisa no fim dos anos 1990, numa escola municipal da periferia da cidade de São Paulo, que serviu para meu livro “Qualidade do ensino: a contribuição dos pais”. Nas escolas públicas, os pais são tratados com arrogância. Mas esse colégio passou a receber os pais com lanche, a tratar bem. E criou grupos de formação de pais, um conceito do Paulo Freire. Os pais recebiam tesoura, cola, revistas, para discutir temas como violência; como muitos pais eram analfabetos, pediam para fazerem colagens. O desempenho dos alunos melhorou, diminuíram as faltas, as pichações, os problemas com drogas. Os programas dos governos deviam incluir ações do tipo, em vez de tablets para professores. O que tem de se ver é que os próprios pais de alunos da rede pública tiveram experiências ruins com a escola quando alunos. É preciso que a escola os chame de volta para ela.

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