Pais criaram dependência afetiva dos filhos

São Paulo, terça-feira, 08 de novembro de 2011 
   

ROSELY SAYÃO

Caprichos de adultos

Vídeos exibindo crianças em situações diversas, feitos e postados pelos pais, são o novo fenômeno Uma leitora disse que gostaria de ler uma reflexão sobre as razões que movem essas mulheres capazes de tudo quando querem ter filhos. Ela assiste a uma novela na qual uma personagem vive tal situação, e ela mesma tem amigas dispostas a arriscar alto para ter filhos. “Por que chegam a tal ponto?”, pergunta. Nossa leitora jogou uma boa isca.
Qual o significado dos filhos no mundo atual? Certamente não é o mesmo para todas as pessoas, mas, considerando as pistas que temos e os valores de nossa sociedade, é possível universalizar algumas ideias. Vamos, então, juntar algumas delas. A primeira, a leitora trouxe: hoje, com o avanço da medicina, é possível engravidar nas situações mais adversas. As clínicas de fertilização estão repletas de mulheres que podem pagar pelos tratamentos caríssimos e que lá se encontram buscando realizar um sonho: o de ter um filho para chamar de “seu”.
Outra constatação que podemos fazer é a de que os filhos, hoje, são levados a trilhar caminhos -muitas vezes árduos para eles- em busca daquilo que, conforme consideram seus pais, lhes dará êxito na vida. Melhor prova desse fenômeno é a maneira como a vida escolar da criança é tratada pelos pais.
Comecemos com as mais novas. Antes mesmo dos seis anos, os pais esperam que seus filhos aprendam a ler e a escrever na escola. Escolas, devidamente pressionadas pela sociedade, oferecem toda sorte de atividades que fazem crianças de dois ou três anos serem iniciadas nos mundos das letras e dos números. Isso, numa idade em que deveriam brincar.
Outro dia, uma criança de quatro anos reclamou com a mãe de uma maneira que esta ficou chocada e tomou a decisão de procurar uma outra escola, com um projeto diferente para seu filho. “Mãe, chego em casa com a mão doendo de tanto escrever.” Uma outra mãe me contou que, na sala de espera do consultório do pediatra, percebeu a competição entre as mães, que vibravam quando seus filhos mostravam saber mais coisas que as outras crianças de mesma idade. Não é espantoso isso?
No ensino fundamental, as crianças já estão com as agendas lotadas de atividades e de aulas particulares. Tudo para garantir que sejam bons -ótimos, de preferência- alunos. 
Isso faz bem aos pais e não importa que seus filhos fiquem sobrecarregados. Por fim, um fenômeno que ocorre na internet: vídeos que exibem crianças em situações diversas, feitos e postados por seus pais, se transformam em fenômenos de audiência.
Um dos últimos mostra a reação de uma garotinha quando seus pais dão a ela uma surpresa de aniversário: uma viagem à Disney. O que deveria ser um acontecimento íntimo entre pais e filha, olho no olho, com afeto e vínculo, ganhou a intermediação de uma câmera, já com o intuito de exibir ao mundo a reação da criança. Um espetáculo.
Há vários outros filmes de crianças na internet. Certamente, caro leitor, você já deve ter visto alguns deles. Será que os filhos, hoje, existem para satisfazer os caprichos de seus pais?
Parece que sim.
Os filhos sempre carregaram a missão de realizar desejos de seus pais. Mas, aos poucos, com maior ou menor dificuldade, os pais permitiam que o filho assumisse sua própria vida.
Hoje isso parece estar mais difícil porque o mundo adulto está infantilizado e, principalmente, porque o relacionamento afetivo entre pais e filhos ganhou contornos jamais vistos. Os pais criaram uma dependência afetiva em relação aos filhos -e isso não é bom para os mais novos.
Dessa maneira fica muito, muito, difícil para eles a conquista da própria vida.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (Publifolha)

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ROSELY SAYÃO

Caprichos de adultos

Vídeos exibindo crianças em situações diversas, feitos e postados pelos pais, são o novo fenômeno Uma leitora disse que gostaria de ler uma reflexão sobre as razões que movem essas mulheres capazes de tudo quando querem ter filhos. Ela assiste a uma novela na qual uma personagem vive tal situação, e ela mesma tem amigas dispostas a arriscar alto para ter filhos. “Por que chegam a tal ponto?”, pergunta. Nossa leitora jogou uma boa isca.
Qual o significado dos filhos no mundo atual? Certamente não é o mesmo para todas as pessoas, mas, considerando as pistas que temos e os valores de nossa sociedade, é possível universalizar algumas ideias. Vamos, então, juntar algumas delas. A primeira, a leitora trouxe: hoje, com o avanço da medicina, é possível engravidar nas situações mais adversas. As clínicas de fertilização estão repletas de mulheres que podem pagar pelos tratamentos caríssimos e que lá se encontram buscando realizar um sonho: o de ter um filho para chamar de “seu”.
Outra constatação que podemos fazer é a de que os filhos, hoje, são levados a trilhar caminhos -muitas vezes árduos para eles- em busca daquilo que, conforme consideram seus pais, lhes dará êxito na vida. Melhor prova desse fenômeno é a maneira como a vida escolar da criança é tratada pelos pais.
Comecemos com as mais novas. Antes mesmo dos seis anos, os pais esperam que seus filhos aprendam a ler e a escrever na escola. Escolas, devidamente pressionadas pela sociedade, oferecem toda sorte de atividades que fazem crianças de dois ou três anos serem iniciadas nos mundos das letras e dos números. Isso, numa idade em que deveriam brincar.
Outro dia, uma criança de quatro anos reclamou com a mãe de uma maneira que esta ficou chocada e tomou a decisão de procurar uma outra escola, com um projeto diferente para seu filho. “Mãe, chego em casa com a mão doendo de tanto escrever.” Uma outra mãe me contou que, na sala de espera do consultório do pediatra, percebeu a competição entre as mães, que vibravam quando seus filhos mostravam saber mais coisas que as outras crianças de mesma idade. Não é espantoso isso?
No ensino fundamental, as crianças já estão com as agendas lotadas de atividades e de aulas particulares. Tudo para garantir que sejam bons -ótimos, de preferência- alunos. 
Isso faz bem aos pais e não importa que seus filhos fiquem sobrecarregados. Por fim, um fenômeno que ocorre na internet: vídeos que exibem crianças em situações diversas, feitos e postados por seus pais, se transformam em fenômenos de audiência.
Um dos últimos mostra a reação de uma garotinha quando seus pais dão a ela uma surpresa de aniversário: uma viagem à Disney. O que deveria ser um acontecimento íntimo entre pais e filha, olho no olho, com afeto e vínculo, ganhou a intermediação de uma câmera, já com o intuito de exibir ao mundo a reação da criança. Um espetáculo.
Há vários outros filmes de crianças na internet. Certamente, caro leitor, você já deve ter visto alguns deles. Será que os filhos, hoje, existem para satisfazer os caprichos de seus pais?
Parece que sim.
Os filhos sempre carregaram a missão de realizar desejos de seus pais. Mas, aos poucos, com maior ou menor dificuldade, os pais permitiam que o filho assumisse sua própria vida.
Hoje isso parece estar mais difícil porque o mundo adulto está infantilizado e, principalmente, porque o relacionamento afetivo entre pais e filhos ganhou contornos jamais vistos. Os pais criaram uma dependência afetiva em relação aos filhos -e isso não é bom para os mais novos.
Dessa maneira fica muito, muito, difícil para eles a conquista da própria vida.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (Publifolha)

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