Alfabetizar digitalmente?

São Paulo, segunda-feira, 07 de novembro de 2011 
 

RICARDO SEMLER

A meninada de hoje em dia


O que aconteceria se uma criança de quatro anos aprendesse a ler e escrever apenas digitalmente?


“É tão mais esperta, gente! Mexe no computador aos dois anos, quando já fala 300 palavras, entende tudo, já negocia…é uma loucura.”
Isso tudo é conversa fiada de avó, que está desculpada de antemão pela condescendência.
Tome-se o tamanho dos seres humanos. Toda geração fica espantada e orgulhosa com os filhos maiores do que os pais. Ora, se a humanidade crescesse apenas dois centímetros a cada geração desde Cristo até agora teríamos todos algo em torno de 3,25 metros de altura!
De fato, a Universidade Ohio fez um estudo com esqueletos e comprovou: o ser humano tem hoje altura média de 1,76 metro, contra 1,71 metro há mil anos! Cresce, portanto, meio centímetro por século, com toda a tecnologia, a medicina e os recursos somados. Ou seja, nada.
É assim com a cabeça da meninada. Da mesma forma que a altura é resultado de disponibilidade de comida, o cérebro dos pequenos se adapta às técnicas e às tecnologias disponíveis. Nada tem a ver com aumento de capacidade intelectual. Certamente o ser humano é tão esperto ou modorrento quanto o foi no ano 1000 e não tem lógica achar os alunos de hoje mais capazes.
O nosso pequeno fez dois anos nestes dias, e encomendei a ele que aprenda 300 palavras nesta semana, pois ele está fixado em duas: “eshte!” -assim, com ponto de exclamação, e “papai”, termo que ele usa para se referir a mim… -e ao jardineiro e também ao motorista.
Numa escola pública do interior sugeri um projeto que está em lento desenvolvimento: o de descobrir que mudanças de cognição (pensando nos ciclos do Vigótski, que desenhou isso) ocorrem quando alteramos a ordem da alfabetização.
Alunos têm aprendido a linguagem escrita em dois mundos paralelamente. Começam a brincar com o teclado, que segue um raciocínio de QWERT (do teclado) e não de ABCDE. Aprendem a linguagem com o dedinho estendido, em vez de curvá-lo em torno de um lápis.
Mas o que aconteceria se uma criança de quatro anos aprendesse a ler e escrever apenas digitalmente, para, depois, reforçar esse conhecimento com caligrafia manual? Não há estudo algum no mundo sobre isso, o que é curioso.
Há experiências de aprendizado paralelo digital-manual, mas ninguém sabe que sinapses se formariam, durante essa fase indelével dos circuitos mentais, em termos de cognição. Será que a forma de perceber o mundo seria alterada se a alfabetização inicial fosse feita apenas com estímulos digitais?
É possível que esse processo desemboque em uma maneira diferente de apreender sequências. O digital estimula mais cedo e se veste de moderno, mas isso é progresso? Ou apenas atraso no lúdico?
Ninguém sabe, ninguém experimenta, e a discussão de “vovô viu a uva” continua em voga. Por isso são os avós que se espantam com a esperteza da meninada. Exatamente como há mil anos.

RICARDO SEMLER, 52, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Escreveu dois livros (“Virando a Própria Mesa” e “Você Está Louco”) que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas.

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