Não há mais encanto em ser professor, afirma Libâneo.

30 de outubro de 2011 | N° 9341AlertaVoltar para a edição de hoje

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“Ser professor perdeu todo o encanto”

ENTREVISTA: José Carlos Libâneo – Professor e doutor em Educação

Uma escola democrática, capaz de desenvolver a capacidade intelectual de cada aluno, que acompanha a evolução tecnológica e social. Essas são algumas das ideias defendidas pelo doutor em Educação e referência nacional no assunto José Carlos Libâneo. Ele esteve em Florianópolis ministrando a palestra de encerramento do Educasul 2011, evento que reuniu 3,2 mil diretores de escolas e professores na Capital.

DC – O modelo brasileiro de educação, que divide o conhecimento em matérias que pouco se relacionam, deveria ser repensado?

Libâneo – Uma visão democrática da escola significa que os alunos, especialmente das classes mais pobres da sociedade, precisam deste conhecimento sistematizado, precisam desenvolver suas capacidades intelectuais por meio dos conteúdos escolares. É pelo conhecimento que o aluno pode desenvolver a sua reflexibilidade crítica. As camadas médias e ricas da população têm acesso ao conhecimento nas escolas pagas, que são boas, e não é democrático você sonegar o conhecimento às populações das camadas socioeconômicas menos favorecidas. Não se pode confundir uma crítica ao modelo tradicional com o abandono do conhecimento. Em decorrência de condições muito peculiares que nós vivemos, como a globalização, o poder das mídias e a violência, é preciso que essa pedagogia visando ao processo mental do conhecimento faça uma adequação metodológica na escola. No mundo de hoje, a palavra escrita está sendo substituída pela imagem, o que significa que você tem o predomínio do visível em relação ao invisível.

DC – Como seria o professor desse modelo escolar?

Libâneo – A primeira característica é um professor que domina o conteúdo. Ele deve também dominar os processos investigativos da ciência que ele ensina. O bom professor não é aquele que domina o conhecimento em si, é aquele que domina o modo de buscar o conhecimento, e isso depende de capacidades intelectuais, de formar conceitos. Não se trata de você dar uma definição e mandar o aluno decorar, isso não serve para nada mesmo, e é isto que nós criticamos na pedagogia tradicional. É preciso também que ele conheça muito bem o aluno, as motivações dele. Se a motivação dele é joguinho eletrônico, tem que levar em conta; se a motivação dele é descobrir, investigar, vamos caracterizar o ensino como um lugar de ajudar o aluno na sua postura investigativa. Também é necessário conhecer o contexto social e cultural do aluno, porque essas práticas que ele traz para a escola já marcam a relação dele com o conhecimento.

DC – As políticas convergem para esse modelo democrático e de desenvolvimento intelectual?

Libâneo – As políticas educacionais brasileiras há 20 anos, desde quando o FMI começou a interferir nas políticas educacionais dos países pobres, passou a ser caracterizada por uma banalização dos conhecimentos básicos. Pobre tem que ter o mínimo de conhecimento e escola de pobre tem que ser de integração e de acolhimento social. Para os pobres é reservado o necessário para sobreviver e consumir. Qual é a consequência disso: escola do conhecimento e da aprendizagem para os ricos e escola da integração e do acolhimento social para os pobres. Esse dualismo é extremamente injusto.

DC – E a formação dos professores, tem evoluído?

Libâneo – A profissão perdeu o encanto, os bons professores não ficam no ensino fundamental e no ensino médio porque há uma desvalorização social e econômica da profissão. As nossas universidades, em especial as que preparam professores para as séries iniciais, têm sido débeis. Elas não trabalham os conteúdos que as professoras vão ensinar às crianças, e se elas não dominam isso, também não dominam o processo mental ligado a este conteúdo, e com isso não podem formar mentes pensantes, críticas. Isso explica por que os resultados das avaliações das escolas apresentam índices tão baixos.

ANELIZE SALVAGNI

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