Educação : Aumentar a carga horária , um debate.



São Paulo, sábado, 15 de outubro de 2011
 

 

TENDÊNCIAS/DEBATES

É positiva a proposta de aumentar a carga horária de escolas públicas?

NÃO

Educação e factoide

RUDÁ RICCI

O que fazer quando se é candidato de um partido poderoso, mas seu nome não tem popularidade? Qualquer organizador de campanha eleitoral dirá: cria-se um fato político.
Por essa perspectiva, o ministro Fernando Haddad foi um bom aluno. Ao anunciar a proposta de aumento dos 200 dias letivos/ano e sugerir que estudos revelam que o aumento dos dias repercute no desempenho escolar, criou um fato político, mas se distanciou de inúmeros estudos que indicam outro rumo a ser tomado para melhoria do desempenho dos nossos alunos.
Vários especialistas da área se adiantaram a demonstrar aquilo que se espera que o ministro já tenha conhecimento.
Segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), apenas a Coreia possui 220 dias letivos.
A Dinamarca tem os mesmos 200 dias definidos por nossa Lei de Diretrizes e Bases. Noruega, Inglaterra, Eslovênia e Chile gravitam ao redor de 190 dias. A Finlândia, o país que apresenta o melhor desempenho escolar segundo o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), possui 188 dias.
Os dados oferecidos por pesquisas e avaliações sistêmicas indicam algo mais complexo e com menor impacto eleitoral: os resultados estão diretamente vinculados com a proximidade do educador com o aluno e sua família.
É justamente essa pista que é desprezada nos últimos anos por nossos gestores educacionais.
Segundo estudos realizados a partir dos dados coletados pelo Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) entre 1997 e 2005, a instrução dos pais é o principal fator que interfere no desempenho dos alunos: alunos cujas mães possuem ensino primário (atualmente, a primeira parte do ensino fundamental) apresentam desempenho três vezes melhor que alunos cujas mães não possuem instrução formal, e assim por diante.
Tal dado já havia sido indicado pelos estudos de Lev Vygotsky, no início do século 20, observando que os hábitos familiares definiam a conduta e o desempenho escolar.
A baixa rotatividade de professores também aparece como fator que contribui para melhorar o desempenho escolar. Já os dados do Saresp (avaliação sistêmica da educação paulista) sugerem que o tempo do diretor escolar nessa função também influencia positivamente na vida escolar do aluno.
Estudo promovido pelo movimento Todos pela Educação revela que redes menores (com menos de 15 escolas) apresentam melhores resultados que grandes redes.
O que esse conjunto de dados sugere? Que educação é relação humana, intimista. Pequeno é melhor, quando se trata de educação e desempenho escolar. Sugere que redes menores; professores estáveis; diretores que conhecem pais, alunos e profissionais de sua escola; escola que se aproxima das comunidades e famílias geram melhores resultados escolares.
Não há segredo. Os gestores educacionais precisam, urgentemente, se afastar de factóides. Precisam investir mais, ouvir mais as salas de aulas e escolas. E ler os dados dos estudos e levantamentos que eles mesmos financiam.

RUDÁ RICCI, 48, é sociólogo, consultor do Sindicato de Especialistas de Educação do Ensino Público Municipal de São Paulo e autor de “Lulismo” (Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto).
Blog: http://www.rudaricci.blogspot.com

 

 

 

 



São Paulo, sábado, 15 de outubro de 2011
   

TENDÊNCIAS/DEBATES

É positiva a proposta de aumentar a carga horária de escolas públicas?

SIM

Boas notícias no ensino brasileiro

PAULO GHIRALDELLI JR.

Segundo o ministro da Educação, Fernando Haddad, o ideal seria tornar as redes de ensino dos Estados e dos municípios capazes de aumentar os dias letivos, ou ampliar a carga horária diária, ou, ainda, decidir por uma fórmula mista.
Segundo o MEC, uma medida nesse sentido está de acordo com estudos de técnicos do governo Dilma, que “apontam na direção de que aumentar o número de dias letivos é o que mais causa impacto na escola”.
A melhoria da qualidade do ensino dependeria, entre outras coisas, “do número de horas por ano que a criança fica exposta ao professor”. Isso é verdade?
Estudos internacionais confirmam isso. Mas é aí que mora o demônio: para que o tempo de exposição do aluno à radiação professoral seja efetivamente benéfico o professor deve ser um bom professor.
Bem, se é assim, então a ideia do MEC é boa, mas está amarrada ao mesmo tronco que prende as possibilidades de outras ideias interessantes. Eis o tronco: valorização financeira da atividade do magistério, de modo a fazer com que nela permaneçam os melhores.
Mas, enfim, o que estou chamado de outras ideias interessantes?
O governo do Estado de São Paulo tomou duas medidas corretas em relação ao ensino público.
Primeiro, fez concurso para o ingresso na carreira do magistério premiando antes os candidatos com melhor nota que aqueles com mais tempo de serviço.
Segundo, colocou esses professores concursados em um curso semestral de especialização, livres de qualquer outra incumbência e recebendo seus salários regularmente.
E a secretaria paulista promete mais: tem dito -mesmo contra vozes conservadoras dentro e fora do governo- que quer reformular a grade curricular do ensino médio no sentido de um maior equilíbrio entre as disciplinas, e deseja dar mais opção de escolha de áreas aos alunos do terceiro e último ano.
A proposta é certeira: as ciências naturais e as humanidades não podem ficar com um número de horas-aula muito diminuto, a ponto de tais disciplinas não terem como colaborar com a formação geral do jovem brasileiro.
Afinal, em um país como o nosso, que cresce em empregos principalmente no setor de serviços, a profissionalização do jovem se dá antes de tudo pela ampliação de sua cultura geral e menos pela aquisição de estreita habilidade técnica.
Resta agora ao Estado de São Paulo ficar atento ao obstáculo que pode infelicitar, também, a boa ideia do governo federal de aumento da carga horária escolar.
Ou seja, eis aqui nós todos no mesmo lugar: há de se valorizar financeiramente a carreira do magistério, de modo a segurar em sala de aula os melhores professores.
Quero crer que as aspirações políticas do governador Alckmin sejam o suficiente para que ele tome ciência e consciência disso. Outros políticos do Estado de São Paulo, que trataram mal os professores, tiveram resposta dura nas urnas.
Resumindo: ideias para melhorar o ensino brasileiro e torná-lo mais parecido com o que se faz nos países desenvolvidos não faltam, no entanto, todas elas estão cada vez mais dependentes de um único ponto: em termos de política, o magistério não pode ser visto como um trabalho movido antes pelo célebre “amor às crianças” que pelo útil dinheiro no bolso do trabalhador, no caso, o professor.

PAULO GHIRALDELLI JR., 54, é filósofo com doutorado pela USP, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e autor de “A Aventura da Filosofia” (editora Manole). 

 

 

 

 

 

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