O conteúdo dos currículos escolares é esquizofrênico; não por acaso o índice de retenção (das informações) é de apenas 6,7%

São Paulo, segunda-feira, 15 de agosto de 2011

RICARDO SEMLER

Aulas de Amy

O conteúdo dos currículos escolares é esquizofrênico; não por acaso o índice de retenção é de apenas 6,7%

“REZEI UM TERÇO para achar um meio para te levar para um quarto.” Essa frase, de para-choques de caminhão, demonstra como frações matemáticas podem ser vistas por outro ângulo. O mesmo vale para o currículo das escolas.
Desenhei um curso de forma que se pudesse entender como jogar fora o currículo que se usa hoje: o projeto “Aulas de Amy”.
A ideia é fazer alunos (digamos, do ensino médio) darem conta de todos os parâmetros curriculares de uma forma moderna.
O curso Amy duraria um bimestre e seria formado por 16 aulas. Para várias delas, seriam convidados, de fora da escola, mestres em algum ofício. Seja um músico, um cabeleireiro ou um médico.
A primeira aula seria como o “CSI” -o seriado da TV. Seria feito com os alunos um roteiro que mostrasse como se trata um cadáver antes da autópsia. Que cuidados precisam ser tomados no local, o que é rigor mortis e como se estima a hora da morte. O aluno aprenderia o que é o formol e por que a impressão digital é singular. Haveria muita química nesse módulo.
Aula dois: “No, No, No”. Ouvindo “Rehab”, todos batem palmas juntos até descobrirem o que é um compasso de 4/4 ou 12/8. Olham notas musicais e entendem por que nenhum músico é bom se não for matemático. Percebem que colcheias e semínimas são frações ideais. Investigam por que a música-padrão tem três minutos, como se calculam direitos autorais, a função do suborno na rádio e os efeitos da pirataria.
Fazem-se cálculos de quanto ganha um astro. Muita matemática, enfim.
Aula três: “Tóchico”. Que componentes estão na cocaína, o que ocorre na ressaca, por que a maconha é proibida, como a cirrose altera o fígado, quanto ganha uma mula de drogas e se é vital corromper a polícia para conseguir distribuir drogas.
Um monte de biologia, um pouco de matemática, um quê de civismo.
Assim vai -acho que ficou evidente. Hoje, o conteúdo é esquizofrênico: de uma aula de história medieval passa-se a uma de trigonometria 2, seguida de uma sobre a tabela periódica e depois a divisão da ameba. E acha-se que alguém no mundo é capaz de juntar isso tudo.
Não é por acaso que o índice de retenção de conteúdo é de 6,7%, tornando o currículo que usamos uma das ferramentas mais burras da humanidade.
A Amy, sozinha, ainda permite falar de penteados na história, entender por que certas religiões não aceitam a cremação ou se o blues é reino de músicos negros. Cabe rever as letras e cotejá-las com literatura de cordel, poesia concreta e hip-hop.
Não tem limites, enfim.
Deve haver um meio de mandarmos o currículo atual, do tempo do “nonno”, para o cesto da história, para os quintos dos infernos!

RICARDO SEMLER, 52, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Escreveu dois livros (“Virando a Própria Mesa” e “Você Está Louco”) que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas.

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