‘Ao mestre, com carinho’ versão atual: quando um professor faz a diferença no desempenho do aluno

EDUCAÇÃO
‘Ao mestre, com carinho’ versão atual: quando um professor faz a diferença no desempenho do aluno
Publicada em 14/08/2011 às 22h55m
Chico Otavio (chico@oglobo.com.br)
Karine Rodrigues (karine.rodrigues@oglobo.com.br)

RIO – Um bom começo para o desafio de oferecer uma educação de qualidade está, diariamente, diante da turma. Um professor dedicado, que sabe motivar os alunos, tem um impacto determinante no desempenho dos estudantes, como mostra a análise de 165 estudos nacionais e internacionais, coordenada pelo pesquisador Ricardo Paes de Barros. Investir em infraestrutura e novas tecnologias, portanto, pode até ser um caminho para cumprir metas que, campanha após campanha, dominam o discurso dos candidatos. Mas, para a realização das promessas repetidas, é preciso também apostar naquele que pode fazer uma diferença significativa, como mostra o filme “Ao mestre, com carinho”, de James Clavell, de 1967. Para reconhecer o valor do mestre, a ONG Todos pela Educação lançou este ano a campanha “Um bom professor, um bom começo”. “Precisamos de políticas para a formação e planos de carreira”, ressalta Priscila Cruz, diretora-executiva da organização, lembrando que a lembrança de um grande educador a gente leva para o resto da vida.

Em Nova Iguaçu, Roberta ensina Libras
Três alunos da Escola Municipal Professora Edna Umbelina de Sant’anna, em Nova Iguaçu, acabam de fazer uma apresentação diante dos colegas de sala. O trio é aplaudido, mas, curiosamente, ninguém ouve som de palmas. É que ali, todos os dias, por dez minutos, o gesto de elogio é expressado de uma forma diferente: não há batida, apenas um agitar de mãos, posicionadas acima da cabeça.

Embora seja uma turma de 5 ano de uma escola de ensino regular, e nenhum aluno tenha dificuldade de audição, o grupo está aprendendo a Língua Brasileira de Sinais (Libras), principal forma de comunicação de pessoas com surdez.

À primeira vista, a iniciativa pode causar estranhamento, mas basta acompanhar uma aula para constatar que a novidade prende a atenção da turma, de cerca de 30 alunos.

– Comecei a ensinar Libras para despertar nos alunos a valorização pela diferença em sala de aula. São apenas dez minutos por dia, mas têm feito diferença – diz a professora Roberta Dutra, 35 anos, formada em Letras com pós-graduação em Educação Inclusiva.

Após concluir um curso de Libras, em 2007, ela pensou que poderia ser interessante usar a língua de sinais para introduzir o tema da inclusão e reduzir a dispersão dos alunos.

– A Libras suscita a sensibilidade e a solidariedade, pois faz despertar para a história de vida do outro. E melhora a concentração, já que os sinais são muito parecidos. Imaginei que isso poderia ajudar contra a indisciplina – conta ela.

Engana-se quem pensa que o projeto ensina só o alfabeto. Roberta, que dá aula há 16 anos, explora outros conteúdos, como verbos. Para apresentá-los, lança mão de formas lúdicas e atrativas, investindo em jogos da memória, quebra-cabeças e desenhos, que nascem das mãos dedicadas da educadora, com participação dos alunos. E usa ainda DVDs e CDs do Instituto Nacional de Surdos (Ines).

Segundo Lúcia Helena Cardoso, diretora da escola, que tem 690 alunos, da educação infantil ao 5 ano do ensino fundamental, houve melhoria no comportamento dos alunos.

– É um ciclo: se você respeita na classe, você respeita no refeitório, na rua, em casa.

Que o diga Sara da Silva do Rosário, 10 anos. Ela entrou na Edna Umbelina no 1 ano, mas ainda sente saudade de Macaé, onde morava. Ressalta, porém, que prefere a professora atual.

– Ela não grita com a gente, não bate na mesa — justifica.

Divididos em grupos, os alunos explicam o que já aprenderam. Diante de dezenas de cartas onde vislumbro apenas sinais do alfabeto, Emanuel Pereira, 11 anos, esclarece:

– Aqui há vários exemplos de configuração de mãos – ensina, mostrando sinais que expressam ações e sentimentos.

A diretora desconhece se o projeto ajudou a melhorar os indicadores da escola – o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para as séries iniciais subiu de 4,1 (em 2007) para 4,9 (em 2009), valor maior do que o encontrado para o Brasil, o Rio e Nova Iguaçu -, mas garante:

– Tentamos contagiar a todos. Fizemos até um curso de Libras na escola, ofertado também para zeladores e funcionários da cozinha e da portaria.

Embora saiba quão difícil pode ser promover a inclusão em sala de aula, Roberta diz:

– Não dá para só lamentar. É impossível levar adiante se não tentarmos mudar a situação.

Waldilene, na Cidade de Deus, vira Emília para ensinar
A segunda visita da boneca Emília à turma 1102 do Ciep Luiz Carlos Prestes, na Cidade de Deus, já não causou tanto espanto. Mas a felicidade da criançada, alunos pobres na faixa dos 6 anos, foi a mesma da estreia. Alguns, emocionados, arriscaram um palpite:

– É a tia Waldilene.

A boneca negou. E com razão. Depois de se vestir com a fantasia que ela mesmo fez, de se maquiar e de ajeitar a peruca, a professora Waldilene Regina Nascimento e Sousa, de 35 anos, se transfigura no personagem de Monteiro Lobato. Sua voz, seus trejeitos e sua desenvoltura fariam inveja à lendária atriz Dirce Migliaccio.

Apesar do talento cênico, que vence a timidez, a pretensão da Emília do “Brizolão do Pantanal”, nome popular daquele Ciep, é outra: ensinar de forma lúdica. E a boneca não perde tempo. Depois de cantar a música da Emília, cita o conto “No reino das águas claras” para explicar aos seus 30 alunos de primeiro ano como é importante não jogar lixo nos rios, mantendo-os limpos e afastando o risco de enchentes.

Eram 11h e Waldilene teria ainda mais cinco horas e meia de atividades até completar mais uma jornada diária. Quase tudo ali conspira contra o bom humor da professora. O Ciep está em uma das áreas mais pobres da Cidade de Deus, onde parte dos barracos foi demolida devido ao risco de desmoronamento. Parte da turma vem de famílias desestruturadas. Algumas têm pais viciados em cocaína e crack, envolvidos com o tráfico de drogas.

Cercada de prateleiras coloridas por objetos diversos, cartazes e avisos criativos, como um que imita uma placa de trânsito para proibir a presença de piolhos, a sala de Waldilene só não é uma ilha da fantasia para a criançada porque ali a educação é real. Num país em que manter a atenção dos alunos da rede pública ainda é um desafio, ela dá lições de criatividade para manter os alunos de olhos vidrados.

Naquele dia, antes de virar Emília, ela contava aos alunos a história de Iara, a sereia, numa atividade sobre figuras folclóricas. Dandara Cristina dos Santos, de 6 anos, de tão ligada na narrativa, ficou de pé para ver melhor o desenho dos homens enfeitiçados pela sereia.

– Que bobões, né? – brincou a professora.

Se a agitação aumenta, Waldilene endurece, mas sem perder a ternura:

– Bumbunzinho no chão. Fecha a matraquinha. Se continuar, vou por o chapéu da bruxa – ameaça.

Com um ano e meio de magistério, aprovada pelo concurso de 2008, Waldilene trocou o emprego num projeto de educação à distância pela rede pública, em busca de estabilidade. Esperava ter dificuldades com a criançada, mas, agora, com o estímulo da direção do colégio, tomou gosto pela sala de aula.

Ela diz que a principal estratégia para vencer a desatenção é usar os próprios elementos presentes na vida dos alunos, principalmente as músicas, para ensinar.

– Outro dia, eles chegaram aqui cantando um funk dos Havaianos, banda daqui. Aprendi a música para cantar com eles, ensinando os fonemas. Deu certo.

Já a boneca Emília nasceu numa sala de leitura. Uma das alunas chegou a chorar de emoção. Paraense, agora está ensinando a turma a dançar o carimbó. Ela mesma comprou os tecidos e costurou as saias das alunas.

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