‘Mais escolaridade não significa engajamento’

Pesquisador da USP diz que, no Brasil, maior acesso à escola nos últimos anos não formou cidadãos mais politizados – O Globo

‘Mais escolaridade não significa engajamento’
Pesquisador da USP diz que, no Brasil, maior acesso à escola nos últimos anos não formou cidadãos mais politizados

Publicada em 06/08/2011 às 18h24m
Silvia Amorim (silvia.amorim@sp.oglobo.com.br)

SÃO PAULO – A universalização do acesso à escola e o aumento da escolaridade média do brasileiro nos últimos anos não levaram à formação de cidadãos mais politizados. Essa é a conclusão de uma tese apresentada ano passado na Universidade de São Paulo (USP) pelo doutor em ciência política e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole, Rogério Schlegel. A baixa qualidade do ensino é apontada por Schlegel como a responsável por essa situação.

– Quando você aumenta a escolaridade das pessoas não quer dizer que isso vai se reverter em mais participação – explica o pesquisador.

Décadas de pesquisas disseminaram a tese de que quanto mais escolarizado um povo mais engajados e politizados são seus cidadãos. A sua dissertação rompe com isso?

ROGÉRIO SCHLEGEL: Sim. Constatei que, no caso brasileiro, o efeito esperado, que chamo de perspectiva convencional, não se confirmou. São 50 anos de pesquisas mostrando que os mais escolarizados tendem a ser mais mobilizados, ativos politicamente, mais democratas. Acontece que há, entre aspas, um defeito de fabricação nessa teoria. Essas análises ficaram concentradas em um ponto no tempo. Ou seja, quando você analisava se num determinado momento os mais escolarizados eram mais engajados, a resposta era sempre sim. A partir disso, concluiu-se que o aumento da escolaridade média formaria automaticamente uma massa de cidadão mais democrata e engajada. O que minha tese mostra é que, no caso brasileiro, não é assim. Quando você aumenta a escolaridade das pessoas não quer dizer que automaticamente vai se reverter em mais participação e mais apoio à democracia.

Por quê?

SCHLEGEL: Digo que a educação não é panaceia em que você tem esse efeito linear automático. Temos que desmistificar a educação. O impacto político dela é limitado. É forte, mas limitado. No caso brasileiro, um ingrediente que mina e faz com que aquela expectativa tradicional não se realize é a baixa qualidade da educação. Muitos estudos já constataram que a expansão espetacular da rede de ensino brasileiro veio acompanhada de uma queda na qualidade do sistema educacional. Minha tese indica que isso teve um impacto no efeito político da educação.

Como concluiu isso?

SCHLEGEL: Comparei pesquisas de opinião de 1989 a 2006 para identificar quanto cada nível de escolaridade estatisticamente agregou em termos de comportamento político. Constatei o seguinte: quem tinha grau de escolaridade acima do superior incompleto em 1989 tinha 3,6 vezes a chance de declarar que tinha muito interesse em política, comparado a alguém com diploma do ensino fundamental. Em 2006, (essa relação) era de 1,6. É o que chamo de retorno político decrescente da educação.

O que o senhor considera um cidadão engajado?

SCHLEGEL: Não estou falando em formar pessoas para serem políticos. Estou falando da participação mais cotidiana que se traduz em hábitos simples, como discutir política com amigos, participar de ONGs, associações de moradores ou religiosas, abaixo-assinado… O ideal é que todo o tempo as pessoas participem, fiscalizando desde a escola do seu filho até o trabalho das autoridades. Isso é ser um cidadão engajado. Agora, o comportamento político depende de outros fatores.

Quais?

SCHLEGEL: A educação tem o seu papel e ele não é desprezível. A minha tese de maneira alguma quer jogar fora 50 anos de pesquisas. O que ela sugere é que, sozinha, a educação não resolve tudo. Tem coisas que o sistema político tem que fazer, como aumentar as possibilidades de participação. A Constituição de 1988 criou vários mecanismos de participação e eles têm florescido. O Congresso tem um papel a cumprir. Minha pesquisa mostra que os partidos tinham um conceito muito melhor em 1989 do que hoje.

O senhor diz que sua tese serve de alerta para os governantes. Que alerta é esse?

SCHLEGEL: Vejo que a gente está perdendo uma oportunidade sensacional. Estamos tendo uma baita inclusão na escola, mas estamos desperdiçando todo o potencial disso. Você imagina que são gerações de brasileiros que vão deixar de aproveitar esse potencial para aumentar seu interesse em política, a sua participação em eleições, o seu engajamento. Minha tese mostra que a nossa política pública merece uma nota baixa no quesito formação do cidadão.

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