Cidadão Quem?

São Paulo, segunda-feira, 23 de maio de 2011

RICARDO SEMLER

Cidadão quem

Falta aula de sabedoria. Onde, na escola, discute-se filosofia, amor, ética ou costumes a fundo?

DEVE ter passado pela cabeça estatística de Dominique Strauss-Kahn, durante o suposto ataque sexual, a chance de ele ser preso. Fez uma conta, mesmo que psicologicamente perturbada, e errou. Talvez pela primeira vez, já que é expert em matemática e deve ter tirado primeiro lugar na matéria desde o jardim de infância.
Não deve ter sido diferente com o “inseminador do futuro” Arnold Schwarzenegger, nem com a versão tupiniquim de Strauss-Kahn, o escorregadio Roger Abdelmassih.
A questão é a da matemática -e da probabilística. Como o Bill Clinton também, são pessoas que estavam no ápice de suas profissões, de impressionantes inteligências e que não conseguem manter o zíper fechado. Patologias? Certamente.
Doença mental? Também, com variações.
Mas tudo tem elo com a escola e a formação da pessoa como um todo.
Como não mede sabedoria, a escola não tem espaço para ela, apenas para equações de terceiro grau.
Nessas matérias, todos esses cidadãos imperfeitos e selvagens foram bem. Receberam ovação dos pais, da escola, dos Enem’s.
E a formação no que realmente interessa para ser um cidadão pleno, com inteligências quantitativa e emocional equilibradas? Aparece no Pisa? Não. Então, por pressão dos pais e da sociedade, não se perde tempo com isso.
Falta aula de sabedoria. Onde, na escola, discute-se filosofia, amor, ética ou costumes a fundo? Onde há um projeto que poderia ser chamado de “Cidadão Quem”? Uma aulinha por dia -de “leitura do mundo”, digamos, onde se questionem as manchetes e o professor confesse que não sabe tudo- bastaria.
Onde, no currículo, discutem-se as questões civilizatórias? O direito à eutanásia, o uso da burca ou os poderes que o dinheiro compra?
Valeria entender a corrupção como peça estrutural na engrenagem humana, ou a questão das centenas de japoneses que estão se contaminando na limpeza do reator nuclear -são eles, afinal, heróis, funcionários comuns em serviço ou simplesmente trouxas?
A arrogância de sexualmente submeter uma mulher pode ser evitada em aulas de sabedoria. Afinal, 497 mil paulistas elegeram um deputado que diz que, em havendo vontade sexual, pode-se estuprar, mas não matar (Strauss-Kahn teria seguido a orientação?). Faltou aos eleitores essa aula. A mesma que evitaria que experts em decoreba tornem-se essa multitude de líderes emocionalmente analfabetos.
O MEC já permite que se empurre aulas de trigonometria para dar espaço a aulas subjetivas como essas.
Mas nenhuma escola o faz. Pensemos na implementação. As camareiras do mundo ficariam aliviadas.

RICARDO SEMLER, 51, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos Líderes Globais do Amanhã. Escreveu dois livros (“Virando a Própria Mesa” e “Você Está Louco”) que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas. Escreve a cada 14 dias neste espaço.

São Paulo, domingo, 19 de junho de 2011

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JANIO DE FREITAS

O lado sigiloso

Não seriam as obras da Copa e da Olimpíada que escapariam ao cartel tão presente nos governos

A PRÓPRIA PRESIDENTE da República sai em defesa do sigilo -com argumento inválido. Do alto de seu compromisso com a transparência, diz que fazer segredo dos gastos bilionários com a Copa e a Olimpíada é “para evitar a formação de cartel”. Sendo pouco, o cuidado com o dinheiro público obterá ainda, com o segredo e seus complementos, “preços melhores” para as obras.
Que ministros, líderes na Câmara e no Senado e outros exemplares políticos andassem por dizeres semelhantes, nada novo. De nenhum se ouvira comprometimento pessoal com a transparência, e o provável é que não se esperasse mesmo. Se todos os dias estoura escândalo em um ministério, com o passar de tantos anos é natural que se acabe entendendo para que e a quem servem, aqui, os chamados poderes públicos.
O sigilo dos elementos da licitação, dos preços e dos custos subsequentes não pode impedir o cartel por dois motivos. Um é que o cartel das empreiteiras de grandes obras públicas já existe há muito tempo. Vem ao menos lá da ditadura, da década de 70, quando a Transamazônica e outras obras do tempo Médici-Andreazza foram cartelizadas.
Se dera os passos iniciais no governo Juscelino, o cartel consolidou-se na ditadura e nunca mais se desfez. Domina a definição de prioridades governamentais em obras de grande porte, domina o Orçamento da União na origem ministerial ou nas emendas parlamentares, domina decisões licitatórias.
O poder e a riqueza desse cartel, e, portanto, de seus componentes, ficou tão grande, que se tornou desproporcional às suas possibilidades e ambições. Suas partes extravasaram para outras atividades, como telefonia, mineração, siderurgia, petróleo, exportação, armamentos, agora tv a cabo, e muito mais. Tudo que possa ser fruto lucrativo de concessões públicas, licenças governamentais e isenção de impostos.
Não seriam estádios, elevados, avenidas e metrôs, e demais projetos pretextados pela Copa e pela Olimpíada, que escapariam ao cartel tão presente no interior dos governos quanto os próprios governos. E até mais, em determinadas áreas governamentais. Do mesmo modo nas instâncias federal, estadual e municipal. É uma das faces do Brasil desconhecido. Sigiloso, digamos.
O outro impedimento a negar o sigilo como fator “para evitar a formação de cartel” é de ordem operacional. O alegado é que as empreiteiras, sem conhecer a estimativa de gasto adotada pelo governo para cada obra, não podem fazer combinação de preços, própria dos cartéis.
Mas a cartelização pode ser feita da mesma maneira, para divisão das obras entre as empreiteiras e as respectivas propostas de preço. Ao governo restará constatar que os preços ficaram acima ou abaixo de sua estimativa e, no primeiro caso, ceder, negociar ou refazer o processo seletivo. E ainda há, para maior facilitação ao cartel, as possibilidades abertas pela medida provisória com o tal Regime Diferenciado de Contratações Públicas: um drible na exigência de licitação para contratações de determinados serviços e obras.
Convém registrar que a vocação do novo sigilo e seus complementos foi reforçada por alterações feitas (e aprovadas) na Câmara pelo deputado petista José Guimarães. Aquele de cuja existência se teve conhecimento fora do Ceará quando, em São Paulo, seu então assessor principal na Assembleia estadual embarcava de volta a Fortaleza com súbita e mal distribuída obesidade: US$ 200 mil na cueca e mais ou menos outro tanto de reais em outras partes. Nada a ver ainda com o enriquecimento da medida provisória.
A Associação Nacional dos Procuradores da República e o procurador-geral, Roberto Gurgel, já sabem o que vão fazer, em companhia da OAB, nas ocasiões apropriadas.

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