Todo jovem estuda na FEBEM

PODEROSO  e corretíssimo artigo de Semler.

Nelson

São Paulo, segunda-feira, 11 de abril de 2011

RICARDO SEMLER

Todo jovem estuda na Febem

Estudo conclui que 96,7% de tudo que é passado como matéria na escola é esquecido por completo

Eles vivem no Facebook e SMS. Os adultos querem que saiam do celular ou do game para prestarem atenção aos estudos. E as escolas proíbem tudo que é divertido. Quanto desperdício de humanidade.
O slogan das escolas — “Cala a boca” e “Decora aí”— presta um profundo desserviço aos meninos e meninas. O que os adolescentes fazem enquanto ficam com aquela cara de UTI nas aulas é estudar a matéria mais importante para o resto de suas vidas: sociologia.
Nas redes sociais, aprendem Shakespeare: amor, ódio, inveja, estratégias de adaptação e rejeição tribal. Por que ela não quer sair comigo? Como é que ele deu um beijo e nunca mais ligou? Será que eu vou levar uma porrada daqueles grandões se eu responder à pergunta da professora? Tudo de importante na humanidade —guerras, arte, empresas— tem na sua origem questões emocionais ou afetivas, a vasta maioria aprendida—ou não—na adolescência. Vigotsky sabia disto. Estamos distraindo o esforço sério com bobagens como trigonometria e a diferença entre mesosfera elitosfera. Que escola dita forte ou de elite teria a coragem de reaplicar uma prova de, digamos, biologia,um ano depois, para o mesmo grupo de alunos? Sabe que vai ver nota 2 onde havia uma nota 9 um ano antes.
A Universidade de Chicago fez o estudo e concluiu: 96,7% de tudo que é passado como matéria na escola é esquecido por completo. Se tiver dúvida, cite três elementos da tabela periódica em ordem, explique o uso do verbo dicendi ou diferencie uma grande sesmaria de uma capitania hereditária. Você sabia tudo isso,decor.
Estudos do cérebro mostram que há uma área, ocórtex cingulado anterior rostral (RCZ em inglês), que é um desconfiômetro sofisticado. Ele avisa quando você não está agradando ou se identificando com a tribo. Durante quase toda a história do homem, não ser aceito significava a morte e hoje ainda é relevante, seja Abercrombie & Fitch ou Abre a Kombi e Fecha. Este RCZ se apura enormemente na adolescência e quem dá aula é o Twitter e o recreio. Contrariar a necessidade antropológica dos adolescentes é o que os torna aborrecidos. Para mantê-los na cela prisionária que é a sala de aula, o jeito é aumentar os muros, colocar seguranças, detetores de metal, confiscar o baseado e aprimorar a repressão. Coisa que até a atual Fundação Casa, antiga Febem, está aprendendo a dosar.
O ensino médio é uma tragédia. Ora, não há porque eliminar aprendizado de conteúdo, e é fácil ensinar a partir do interesse real da meninada. Mas via cartilha, simulado e provinha — com as respostas na web— é muito obscurantismo. Hoje, é difícil saber, de fora, se um prédio abriga uma escola ou uma Febem. Os adultos, portanto, estão tirando zero nessa matéria.

RICARDO SEMLER, 51, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos Líderes Globais do Amanhã. Escreveu dois livros (“Virando a Própria Mesa” e “Você Está Louco”) que venderam 2milhões de cópias em 34 línguas.

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2 opiniões sobre “Todo jovem estuda na FEBEM

  1. Acabei de encontrar esse poderosíssimo artigo jogado entre os jornais velhos da escola. Sou professora e ando meio revoltada com o que é a escola, com o que são os alunos e como estou me tornando uma professora chata!
    Chata porque sou obrigada a fazer parte desse sistema que me impede de trazer esse mundo “da sociologia” do aluno pra dentro dos muros da escola. Sou obrigada a usar essa lousa verde e esse giz asqueroso, não tenho chance de mostrar o que sei, o que desejo que eles façam com tudo isso que também adoro: redes sociais e um aprendizado muito além de cópia e decoreba…não quero formar copistas…não quero formar revoltados e alienados!

  2. Pq não pode? Vamos tentar? Eu passo pela mesma situação…e vou cafungando pequenos espaços de mudança. Primeiro, conquisto alguns alunos. Depois passa a ser consequência. O pior é enfrentar os coleguinhas…

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