Não é meu – José Pacheco

“Não é meu…”
José Pacheco | 2011-02-28
Durante a viagem, a criancinha premiu o botão de chamada, exasperando a hospedeira. Plantou os sapatos sujos em cima do assento, arrancou e destruiu tudo a que pôde deitar a mão. Impunemente, até ao fim da infernal viagem.
Primeira situação: o moço havia chegado à sua nova escola nesse dia, expulso de outra e bem recomendado: “É uma criança mimada e desobediente.” Quando pendurou o seu casaco, derrubou dois e não fez menção de os apanhar. Fui ao seu encontro. Olhei para os casacos caídos. E o moço falou: “Não fui eu!” 

Fitei-o, calma e insistentemente. O moço voltou à fala: “Não são meus!”

Voltei o meu olhar para os casacos. O moço voltou atrás, apanhou-os e pendurou-os nos cabides de onde os tinha arrancado.

No fim da tarde, uma senhora entrou na escola, dirigiu-se ao vestiário, pegou no casaco do moço, atirando um outro casaco ao chão. Não se baixou para o apanhar.

Segunda situação: portas fechadas, o avião acabava o abastecimento de combustível. A tripulação avisava ser proibido o uso de telemóveis. Os telemóveis tocavam. Muitos passageiros faziam ouvidos de mercador, ligando para familiares e amigos.

O avião chegou ao final da pista, preparava-se a partida – “Eu insisto, minha senhora! Faça o favor de apertar o cinto da sua filha”. 

“Ela não deixa colocar o cinto. Não consigo convencê-la.”

Quando a mãe insiste – “Vá lá, meu anjinho, deixa a mãe pôr o cinto!” – apanha uma sonora bofetada do anjinho. A mãe encolhe-se. Sorri para a hospedeira de bordo: “Não vê que é uma criança…” 

Durante a viagem, a criancinha premiu o botão de chamada, exasperando a hospedeira. Plantou os sapatos sujos em cima do assento, arrancou e destruiu tudo a que pôde deitar a mão. Impunemente, até ao fim da infernal viagem.

O avião aproximava-se do local de desembarque. Três vezes se escutou o apelo: “Por favor, permaneçam sentados até à paragem completa do avião”. Repetido o apelo em língua inglesa, os passageiros levantados (mãe e filhinha incluídos) não voltaram a sentar-se. Presumo que fossem surdos, ou que não fossem ingleses…

Terceira situação: um jovenzinho de aspeto boçal descalçou-se, inundando o autocarro de um cheiro nauseabundo. Pousou um pé no espaldar do assento à sua frente. A passageira da frente sentiu o contacto do pé (e do odor), encolheu-se e voltou o rosto para a janela. 

A moral da história… Provavelmente, quase todos os protagonistas destes exemplares episódios terão andado na escola. Quem os ajudou a crescer? Certamente, os jovenzinhos tiveram pais, parentes e amigos. Educação, essa não tiveram. 

A Hanna Arendt dizia que as pessoas que não quisessem ter responsabilidade pelo mundo não deveriam ter filhos e que “os pais não exercem a sua autoridade e deixam os seus filhos nas mãos de chefetes que os lançam no conformismo e na delinquência”. 

A educação deveria começar na domus e continuar no seio da escola e da cidade, porque os filhos não nascem com manual para uso dos pais e urge assegurar o preceito de Napoleão: a educação de uma criança começa vinte anos antes de ela nascer. Porém, os infantes são “guetizados” em instituições de rituais sem sentido e entregues à TV, às consolas de jogos, à Internet… Será preciso proteger as crianças da demissão das famílias? Ter-se-á de inibir o poder paternal? 

A escola talvez possa ser um dos lugares de reparação dos males da deseducação, quando instituir estruturas de convivencialidade, um permanente e equilibrado diálogo com as famílias. Quando for um lugar onde a autoestima ande a par com a heteroestima, onde cada ser seja individualmente responsável pelos atos de todos os outros. Onde autoridade rime com liberdade e a firmeza possa rimar com delicadeza.

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