Fazer várias coisas ao mesmo tempo é bom?

São Paulo, terça-feira, 22 de março de 2011 
 
 

ROSELY SAYÃO

Questão de foco


Será que a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo é uma competência desejável?


HOJE, A sociedade se orgulha de algumas características que os mais novos demonstram ter. Uma delas é a capacidade, dizem, que eles têm de fazer várias coisas ao mesmo tempo.
O modo como nos referimos a isso já dá sinais de que consideramos essa capacidade de manter atividades múltiplas e simultâneas como uma habilidade desejável e produtiva.
Para falar a verdade, há, inclusive, uma ponta de inveja de nossa parte, quando nos referimos a essa característica que muitos dos mais jovens apresentam e que já tratamos como talento.
Temos certeza de que ser capaz de realizar várias coisas ao mesmo tempo é uma boa e desejável competência para a pessoa -e para o mundo, portanto.
Será mesmo? Vamos avaliar essa nossa posição. Um professor do ensino médio me disse, recentemente, que ele não conseguia motivar seus alunos a prestarem atenção em sua aula porque eles não tinham nada mais com o que se ocupar naquele momento.
Na visão desse professor, a solução seria deixar os alunos ficarem com seus celulares à mão, para dessa maneira criar um clima de disciplina em sala de aula.
Os pais de um adolescente que está se preparando para prestar vestibular neste ano, por sua vez, reclamaram que o filho não conseguirá classificação para entrar na faculdade que quer -muito disputada- porque ele não consegue focalizar a sua atenção nos estudos.
Esse jovem se tranca no escritório para estudar com computador ligado, celular, televisão e música nos ouvidos e, três horas depois, diz aos pais que não consegue se concentrar para estudar. E os pais acham que, se o menino não tiver todos esses apetrechos, não conseguirá nem sequer ficar no escritório.
Não parece que, em ambos os casos, o que os adultos querem é apenas que o jovem se ocupe e, dessa maneira, deixe os adultos em paz? Imagine uma sala de aula mais silenciosa pelo fato de os alunos ficarem envolvidos com a tralha tecnológica em que se transformou um celular. Se eles conseguem prestar atenção à aula já é outra história… Mas que o professor terá menos trabalho, disso ninguém duvida.
Do mesmo modo, imagine um filho adolescente perambulando pela casa reclamando do fato de ter de estudar para o exame vestibular. Melhor ele ficar trancado por três horas mesmo que isso não resulte em estudo, certo?
Por outro lado, caro leitor, procure observar um jovem se dedicando a fazer algo de que realmente gosta. Ele focaliza toda a sua atenção naquilo e até reclama se alguma coisa ou alguém surge para distraí-lo de sua empreitada. E essa também é uma boa oportunidade para testemunhar o quanto de esforço o jovem é capaz de realizar para conseguir o que quer, por maior que seja o custo que ele tenha de arcar com isso.
Isso pode significar que os jovens aprendem, desde muito cedo, a deixar a sua atenção flutuar entre várias coisas, mas também que conseguem baixar a âncora quando querem. Só quando querem, e não também quando precisam.
Se assim entendermos, nossa prática educativa certamente mudará desde a infância, porque entendemos que o mundo exige as duas coisas: capacidade de atenção concentrada e também a de realizar bem várias tarefas simultaneamente. Se os jovens têm potencial para desenvolver as duas habilidades, devemos, então, contribuir com isso.
Para completar, fica faltando apenas a nossa colaboração com os jovens no sentido de apontar para eles que a realidade exige mais do que exercer nosso potencial em função do querer; é preciso também considerar o dever e a necessidade.


ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (Publifolha)
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