Limites tem Limites?

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Limites têm limite?

Livro defende método “mãe tigre” para transformar crianças em “gênios” e encontra público entre pais que não sabem o que fazer para impor disciplina e cobrar resultados dos filhos

Erin Patrice O’Brien/”Wall Street Journal”

A autora Amy Chua, 48, (centro) e suas filhas Sophia, 18, (à esq.) e Louisa, 15 

IARA BIDERMAN
DE SÃO PAULO 

Chame seu filho de lixo quando ele fizer algo que você desaprova. Exija que nunca tire menos do que nota dez no boletim. Proíba que participe de atividades recreativas, a não ser que ganhe uma medalha por isso. E que seja a de ouro, claro.
É uma lista desse tipo (mais itens daqui a pouco) que explica por que os chineses conseguem criar filhos excepcionalmente bem-sucedidos na escola e na carreira, segundo Amy Chua, norte-americana descendente de chineses e professora de direito na Universidade Yale.
A autoridade para falar da educação de crianças vem da experiência própria. “Eu posso dizer [o que fazem esses pais para produzir tais talentos] porque eu fiz com minhas filhas”, afirma Chua na introdução de seu livro “Battle Hymn of the Tiger Mother” (“Grito de Guerra da Mãe Tigre”, Penguin Press).
No decorrer do livro, ela não poupa exemplos dos triunfos das meninas, Sophia, 18, e Louisa, 15, o que justificaria suas teses.
Se a eficácia do método de educar filhos gera muita controvérsia, a estratégia de marketing foi definitivamente bem-sucedida. A editora do livro negociou com o “Wall Street Journal” a publicação de um extrato do livro, devidamente bombástico, três dias antes do lançamento, no início deste mês.
Quando o livro foi posto à venda, já havia mais de 5.000 comentários sobre a matéria na internet. Ninguém precisa ser gênio para saber que se tornou um best-seller instantâneo -apesar das fragilidades do livro ao tratar uma questão crucial.
A dificuldade de disciplinar, impor limites e cobrar os filhos é uma das grandes preocupações atuais, e as declarações de Chua tocam em um nervo sensível dos pais. Afinal, se a abordagem flexível e mais complacente não está dando certo, será que a rigidez extrema é a solução?

EXEMPLOS VAZIOS
O problema é que nem os exemplos servem para algo -a não ser que ameaçar queimar bichos de pelúcia se a filha não praticar seis horas de violino ou ter dinheiro para contratar os melhores violinistas do mundo para aulas particulares sejam “métodos” reproduzíveis.
“Do ponto de vista científico, ninguém pode estabelecer opiniões utilizando os próprios filhos como exemplo. É um princípio básico”, diz o psiquiatra e psicanalista Wagner Ranña, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Além disso, Ranña afirma que a educação é focada no sujeito, não em um parâmetro massificado (e provavelmente estereotipado) como o modelo chinês. Que por seu lado, também pode se tornar um pesadelo para os pais.
Um estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA mostrou que o risco de suicídio entre universitários é duas a três maior nos descendentes de asiáticos. Estudiosos do fenômeno apontam a pressão por desempenho como uma das maiores causas.
Para a educadora Gisela Wajskop, presidente do Instituto Superior de Educação Singularidades, o modelo até pode dar certo, dependendo de quem você quer formar.
“Essa discussão casa muito bem com uma geração de pais que quer saber como cuidar dos filhos sem ter tempo e como fazer com que o filho tenha tanto sucesso quanto eles, ou mais.”
A psicóloga e colunista da Folha Rosely Sayão lembra que escolhas como só estudar ou treinar um instrumento e tirar o tempo de brincar ignoram a criança no presente e jogam todas as fichas em um futuro que ninguém garante que vai acontecer.
“Qualquer tipo de educação tem limites, que podem ser mais estreitos ou alargados. Mas educar significa colocar na vida, investir pesadamente em valores, socialização, virtudes e aprender a sobreviver ao fracasso.”
Wajskop, que se considera meio “linha-dura”, diz que dá mesmo muito trabalho. “Sou a favor da disciplina, mas não dá para seguir esse discurso sem pensar. Criança não é cachorro, nem sempre dá certo.”

SEM CHÃO
Contenção, responsabilidade, organização e treino são pontos essenciais na educação, diz Wajskop. “A sociedade e as escolas estão experimentando formas de lidar com isso, mas ainda estão sem chão.”
Não há receita pronta. “As pessoas querem acreditar que alguns livros vão dar isso, mas eles só criam fumaça”, diz a psiquiatra Maria Conceição do Rosário, professora associada do Centro de Estudos da Criança da Universidade Yale.
Em sua defesa, Amy Chua diz que não se propôs a escrever um manual de como educar as crianças. Esqueceu-se de combinar isso com a editora, que imprimiu em cores marcantes na contracapa da edição norte-americana “Como ser uma mãe tigre”.
A autora afirma que sua intenção foi escrever um livro de memórias. Para quem gosta do gênero, um aviso: Chua não tem “mão pesada” só na educação das filhas, mas também no estilo.
O resultado é equivalente a passar duas horas ouvindo uma amiga falar sem parar de todos os prodígios dos filhos sensacionais (dela).
Tudo isso torna mais digna de nota a estratégia de marketing, milimetricamente controlada. Por exemplo, a autora não concedeu entrevista à Folha porque, como escreveu sua agente literária, só falará com os jornalistas quando o livro for lançado no Brasil, no segundo semestre.
Será que todo o barulho em torno da “mãe tigre” continua até lá?

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