Ataques e justificicativas

Folha de S.Paulo – Rosely Sayão: Ataques e justificativas – 23/11/2010

São Paulo, terça-feira, 23 de novembro de 2010

ROSELY SAYÃO

Ataques e justificativas

As relações estão coisificadas. Não é qualquer um que é visto como ser humano

FOMOS INFORMADOS de que cinco jovens de classe média, com comportamento violento, atacaram outros três na avenida Paulista, em São Paulo.
O fato logo foi seguido por comentários e explicações por parte de pessoas próximas às envolvidas: justificativas que tentavam amenizar a situação.
O acontecimento foi associado à homofobia, e essa relação está sob investigação. Mas, vejamos as declarações de pais de alguns dos agressores.
Um afirmou a um jornal que tudo não passou de “uma grande confusão” e foi além: disse que não se tratava de um ato homofóbico, e sim de uma briga comum.
Ah, bom! Se não há homofobia no meio, tudo fica menos sério, não é? Outro pai chamou os jovens agredidos de “supostas vítimas” e não aceita o fato de a versão deles ter sido apresentada à polícia sem a presença dos advogados dos que praticaram a agressão.
Outro reconhece que o filho tem “pavio curto” e afirma que, por isso, o jovem teria reagido com briga a uma “cantada” um pouco agressiva da parte dos jovens que foram atacados.
Ah, bom, se foi reação, não foi tão grave assim.
A mãe de um deles afirmou que os encontrou chorando (eles estão, no momento em que escrevo este texto, recolhidos) e os chamou de “crianças”. Ela disse também que não sente vergonha, mas que está sensibilizada com o fato de os outros jovens estarem machucados.
Um pai declarou a mesma coisa: que os garotos “estavam chorando” quando os viu. Ah, bom, se os agressores estão sofrendo, devemos nos preocupar com eles.
Já temos o suficiente para refletir a respeito desse fato que nos remete a outros semelhantes já noticiados.
O que a educação que praticamos em casa e nas escolas tem a ver com isso? Como o comportamento no mundo adulto estimula acontecimentos desse tipo?
Educar tem sido cada vez mais difícil. Você deve ter considerado, caro leitor, como muitas pessoas e eu, que o avanço do conhecimento e das tecnologias facilitariam o processo educativo.
Engano nosso: a cada dia, novos dispositivos, ideias e valores são incorporados à vida dos mais novos -e isso exige novas atitudes educativas de nossa parte.
Educar na atualidade exige um conhecimento crítico e uma compreensão do mundo e da realidade para que os atos educativos possam conter, pelo menos em sua intenção, possibilidades de mudanças para os mais novos.
O ocorrido aponta, entre outras coisas, que as relações com os outros estão “coisificadas”, desumanizadas. Não é qualquer outro que é visto como ser humano.
Os que não são reconhecidos como parte do grupo ao qual a pessoa pertence, em geral bem pequeno, são vistos como estorvo, fonte de problemas e geradores de insegurança e, logo, de desconfiança. Isso impede a solidariedade, a colaboração e estimula a xenofobia. Índios, empregadas domésticas, prostitutas e homossexuais já foram tratados por jovens como “coisas” e não como seres humanos, em um passado recente.
Enquanto as escolas se preocuparem com a competição nos diversos “rankings” publicados, enquanto as famílias se preocuparem apenas com o futuro pessoal de seus filhos, e enquanto ambas as instituições não apostarem na recuperação da vida coletiva e social, nossos filhos terão poucas chances de uma existência digna.
Em tempo: mesmo que seu filho frequente uma escola privada renomada e conceituada, você não tem motivos para ficar tranquilo. Lá dentro também ocorrem exclusões, humilhações, enfrentamentos, furtos e abusos.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (Publifolha)

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