A nova paternidade

Blog da Rosely Sayão – UOL Blog

27/03/2009

A nova paternidade

Creio que todos estão informados sobre a disputa pela guarda do garoto, filho de mãe brasileira e pai estadunidense, que já foi divulgada amplamente pela imprensa. O caso do garoto é complexo por envolver, entre várias questões, a dupla nacionalidade do menino e a morte de sua mãe. Não vamos conversar a respeito disso, mas sobre um tema que ele suscita: a paternidade no mundo contemporâneo.

O perfil clássico do pai conhecemos bem e sabemos que permaneceu estável pelo menos até os anos 60. Até então, cabia ao homem o papel de fundador do grupo familiar. Era ele o responsável por tomar a iniciativa de construir uma família composta pela união dele a uma mulher pelos laços do casamento, união que durava até o fim da vida de um deles. Nesse tipo de organização familiar, os filhos recebiam os cuidados necessários principalmente da mãe, que, além disso, também era quem mantinha com eles o vínculo afetivo acolhedor.

Ao pai cabia principalmente o papel de provedor de todo o grupo. Analisando hoje, percebemos que o pano de fundo da família, que é tudo o que envolve a vida doméstica e a lida com os filhos, não oferecia um lugar ao pai, sempre ausente desse enredo. Não é à toa que hoje, quando queremos fazer referência à falta do pai na vida dos filhos, usamos a expressão “pai ausente”. Essa ausência foi forjada num determinado tipo de organização familiar em que o poder da mulher se restringia aos filhos e à vida familiar.

Pois, a partir do momento em que a família deixou de ter essa configuração estável e entrou em um período de transição e mudanças significativas, começou a ser construída a figura do “pai presente”. Interessante rever o percurso que o homem fez para se fazer presente como pai. Apresentou-se na sala de parto para testemunhar o nascimento do filho. Logo depois, passou a exercer em alternância com a mãe do bebê o que chamamos de maternagem: acordar nas madrugadas para atender ao chamado do filho e acalmá-lo, trocar fraldas, dar banho, embalar para o sono, contar histórias antes de dormir etc.

Com o crescimento da criança, passou também a participar dos diálogos familiares que envolviam a vida doméstica com os filhos -espaço anteriormente exclusivo da mãe-, a discutir sobre a escolha da escola e muito mais. Muitos interpretaram essa entrada do pai na vida dos filhos como uma maneira de evitar a chamada segunda jornada de trabalho só da mulher. Entretanto, foi mais do que isso, já que outros fatos se sucederam.

Um deles, em especial, chama a atenção: em caso de separação, muitos pais deixaram de aceitar a decisão, antes quase unânime, de deixar os filhos com a mãe. Muitos passaram a pedir mais espaço com os filhos, já que fins de semana ou férias escolares passaram a ser insuficientes para quem almejava conviver com os filhos e se fazer presente na vida deles.

Aliás, a aprovação, em 2008, da lei sobre a guarda compartilhada comprovou a mudança social a esse respeito. Entretanto, homens e mulheres ainda transitam entre esse novo conceito de paternidade e o antigo. A justiça, por exemplo, ainda enfrenta diariamente casos de disputa pela guarda dos filhos. Muitas mulheres hesitam em compartilhar ou alternar a guarda dos filhos com o ex-parceiro e outras ainda insistem em atrapalhar informalmente essa relação.

As crianças têm o direito de saber quem são seus pais e de conviver com ambos. Os homens têm o direito de exercer essa nova paternidade e de não se conformarem em ser apenas reprodutores ou visitantes dos filhos. Lutar por esses direitos é dever de todos nós.

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Uma opinião sobre “A nova paternidade

  1. Este é um temapolêmico.
    Acho que o filho tem realmente que viver com o pai que foi a outra metade do casal que restou.
    Mas lembro-me de uma gravidez minha, de terceiro filho, durante a qual implorava a meu marido, diariamnete, que não afastasse meus outro filhos de meus pais e tios.A hipótese contrária era um tormento para mim, a possibilidade de ele dar uma outra mãe para meus filhos me aterrorizava. passei 9 mese chorando e tomando Valium. Difícil ser racional.

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