Conflitos na escola

Folha de S.Paulo – Rosely Sayão: Conflitos na escola – 19/03/2009

São Paulo, quinta-feira, 19 de março de 2009

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ROSELY SAYÃO

Conflitos na escola

[…] A ESCOLA E OS PAIS DOS ALUNOS TÊM SE ESTRANHADO FAZ UM BOM TEMPO; OS MOTIVOS SÃO VÁRIOS E DIFERENTES ENTRE SI

Li em uma reportagem que Gloria Perez, autora da novela “Caminho das Índias”, não se interessa em retratar pessoas reais. Mas retrata situações bem reais, como as do núcleo que se reúne em torno da escola: alunos, seus pais, a professora e a diretora.
Para quem nunca assistiu à novela, resumo essa parte da trama: um grupo de jovens de uma sala se comporta de forma desrespeitosa e até violenta dentro e fora da escola. Eles intimidam colegas e os agridem verbal e fisicamente, destratam a professora, cometem furtos e desrespeitam todas as normas de uma convivência civilizada.
A professora e a diretora se mostram impotentes diante dos acontecimentos, o que contamina todos os colegas da classe. Os pais são continuamente convocados pela escola para ouvir reclamações a respeito do comportamento de seus filhos.
Há pais prepotentes que invadem a sala de aula e aceitam o comportamento do filho e pais submissos que repassam as reclamações da escola aos filhos em forma de ameaça. Enfim, um instantâneo das relações entre pais e escola muito real.
Por isso mesmo, serve como pretexto para voltarmos a esse assunto, já que essa parte da novela tem acirrado as relações entre pais e professores.
A escola e os pais dos alunos, de modo geral, têm se estranhado faz um bom tempo. Os motivos são vários e diferentes entre si, mas todos concorrem para promover um grande desgaste em alguns componentes importantes dessa relação.
Restaram, então, a desconfiança mútua e a reclamação. Pais reclamam da conduta da escola, professores reclamam de alunos e de seus pais; pais desconfiam que a escola não cumpre seu papel a contento, professores desconfiam que os pais não educam bem seus filhos.
Sabemos que as escolas poderiam fazer bem mais e melhor do que fazem por seus alunos, mas estão submetidas em demasia aos valores e ideais que a sociedade tem valorizado e, por isso, hesitam na experimentação de novas formas de organização e ensino, não incluem o rigor como parte constituinte de seu trabalho e, principalmente, não sabem como instituir uma autoridade democrática com os alunos, tampouco com os professores. Estes compõem atualmente uma categoria subestimada pela sociedade e que se subestima em sua capacidade de intervir nas situações problemáticas que enfrenta cotidianamente.
Por outro lado, sabemos que a educação familiar está em declínio principalmente porque os pais, sujeitados a valores contemporâneos, notadamente o da manutenção da juventude e o da busca incessante da felicidade, mostram-se incertos quanto à necessidade de estabelecer uma relação de autoridade afetiva com os filhos. A guerra instalada entre pais e professores por vezes corre solta e ruidosa, mas também pode ocorrer em silêncio, quase em segredo. Pois bem, se queremos bem às novas gerações, precisamos de uma trégua.
Vamos dar férias a esse comportamento belicoso que tem sido estimulado pela trama da novela. Esse tempo é necessário para que a confiança seja (re)estabelecida com reciprocidade e, então, cada escola tente construir com os pais de seus alunos uma relação que renda bons frutos para os mais novos.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (ed. Publifolha)

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Diversidade leva classe média a escola

Folha de S.Paulo – Diversidade leva classe média à escola pública – 16/03/2009

São Paulo, segunda-feira, 16 de março de 2009

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Diversidade leva classe média à escola pública

Para que convivam com alunos de vários níveis socioculturais, pais como a atriz Andréa Beltrão preferem matricular filhos na rede pública

Casos estão restritos a colégios públicos com padrão alto de aprendizado e ainda são minoria nas famílias mais ricas

Rafael Andrade/Folha Imagem

Ana Cristina Nori (à dir.), com o filho João e outras famílias que optaram pela escola municipal Minas Gerais, considerada modelo no Rio

ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO

Num país em que a maioria das famílias de classe média ou alta vê o ensino privado como única opção, uma parcela desse grupo foge à regra e matricula os filhos em escolas públicas. Muitos procuram algo que os colégios particulares, por serem pagos, são incapazes de proporcionar: um ambiente diversificado, onde convivem alunos de vários níveis socioculturais.
Foi esta a opção de Andréa Beltrão, atriz que interpretou uma professora no filme “Verônica”, lançado neste ano.
Mãe de três filhos, ela diz que a escolha foi natural. “Eu estudei em escola pública. Minha mãe deu aula no Pedro 2º [colégio federal no Rio]. Por isso, quis para meus filhos uma escola em que o critério de entrada não fosse o dinheiro”, diz.
Casos como o dos filhos de Andréa ainda são minoria nas famílias mais ricas.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, tabulados pela Folha, mostram que em 2007 apenas 16% das crianças nas famílias de maior renda (mais de cinco salários mínimos per capita) estudavam em escolas públicas. Em 2001, eram 12%.
Como não abre mão da qualidade, esse movimento da classe média em direção à escola pública ainda é restrito aos poucos estabelecimentos estatais que conseguem manter alto padrão de aprendizagem.
É o caso da escola municipal Minas Gerais, no Rio, incluída em 2006 numa lista do Ministério da Educação e do Unicef de escolas públicas modelo. Além de atender crianças mais pobres, a escola atrai uma parcela da classe média, como o funcionário público Luiz Eduardo Ricon. Seus dois filhos, de nove e 14 anos, estudavam num colégio particular até o ano passado.
“O problema não era a mensalidade. Eu e minha mulher achávamos que o melhor para eles era estudar numa escola que fosse representativa da cidade em que vivem, pois, no futuro, vão trabalhar e conviver com todos, e não apenas com pessoas de classe média que pensam como eles”, diz Ricon.

Ensino mais valorizado
Em São José dos Campos (SP), o professor Túlio Lopes Cunha conta uma história parecida. Suas duas filhas, de três e nove anos, estudam hoje na rede municipal da cidade. A mais velha, no entanto, veio de uma escola particular onde a mensalidade custava R$ 430.
“Levei em conta também a questão financeira, mas só matriculei minha filha mais velha nessa escola depois que vi que ela ficou bem acima da média”, diz Cunha, citando o Ideb, índice do MEC que monitora a qualidade da educação pública e que mostrou que a escola Jacyra Baracho estava entre as 20 melhores de São Paulo.
Até o momento, ele diz que não teve motivos para arrependimento. “Minha filha se adaptou muito bem. Está se sentindo até mais acolhida. Pela minha experiência como professor, sei que muitos pais de escolas particulares acham que a educação se resume a pagar uma escola. Na rede pública, aprende-se a valorizar mais o ensino”, afirma Cunha.
Outra vantagem adicional citada por pais que optaram pela rede pública é a mudança em hábitos de consumo.
“A pressão consumista diminui bastante, pois não existe tanto essa coisa de eles quererem usar na escola calça de marca ou tênis da moda”, conta a engenheira Ana Cristina Nori, que tem um filho na escola municipal Minas Gerais e outro que estudou lá no ensino fundamental.
Nori diz não se abalar quando ouve o argumento de que seus filhos poderiam estar na rede particular, liberando a vaga para alunos mais pobres.
“Eu pago impostos e tenho os mesmos direitos que qualquer outro cidadão. Sempre estudei em escola pública e acho que, se a classe média não tivesse abandonado a escola pública quando ela começou a piorar, hoje, certamente, a situação do ensino não seria tão ruim.”

Não tem segredo

Folha de S.Paulo – Gilberto Dimenstein: Não tem segredo – 22/03/2009

São Paulo, domingo, 22 de março de 2009

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GILBERTO DIMENSTEIN

Não tem segredo

Quando o aprendizado das matérias se mescla com atividades lúdicas, os resultados aparecem

ESCREVI NESTE espaço, em dezembro passado, sobre um movimento liderado por um grupo de alunos e professores para evitar o fechamento de uma escola pública (Carlos Maximiliano, conhecida como Max) localizada a duas quadras da rua em que moro, na Vila Madalena -o que significa que está no trajeto das minhas caminhas diárias e eu podia assistir àquela experiência como se estivesse dentro de um laboratório.
Na quinta-feira passada, esse laboratório produziu uma das minhas melhores lições de educação, graças à combinação de uma boa e de uma péssima notícia.
Comecemos pela boa notícia: as classes do ensino fundamental conseguiram superar, com muita folga, a meta fixada pelo Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo). A nota ainda está longe, muito longe, do ideal, mas é uma vitória e tanto para quem estava desenganado, com data marcada para fechar as portas no final de 2007; muitas salas já estavam vazias e o auditório se transformou em arquivo morto.
Vamos, então, à notícia ruim: as classes do ensino médio, ao contrário, não só não alcançaram a meta como tiveram um retrocesso em 50% em relação ao ano anterior. Como é possível uma reação tão diferente dentro de um mesmo espaço? Entender essa disparidade significa entender os ingredientes que fazem avançar ou retroceder o aprendizado.

Na busca de apoio para evitar a morte anunciada, o grupo de professores e alunos conseguiu parcerias no bairro para oferecer as mais diversas oficinas durante o período da tarde -português, matemática, dança, comunicação, cinema, literatura, artes plásticas, música… Só as classes do ensino fundamental foram beneficiadas, pois os alunos estudam em tempo integral e tinham disponibilidade do contraturno.
Já o ensino médio tem o horário normal e, nessa primeira fase, não recebeu nenhum apoio especial; o apoio será iniciado neste ano, com a entrada do Instituto Unibanco, que desenvolve um plano de gestão de metas para colégios públicos de ensino médio. Resultado: o retrocesso na nota. Foi a segunda maior queda entre todas as escolas de ensino médio da cidade de São Paulo.
Aqui entra a primeira lição, comprovada em estudos e mais estudos, muitos deles feitos por economistas -o aumento da jornada escolar (desde que de qualidade) é um dos fatores que mais ajudam os alunos.
Maior jornada não significa, a rigor, nada. No último lugar do Idesp, na cidade de São Paulo, está a Amadeu Amaral, de tempo integral, na zona leste, onde, em 2008, teve a rebelião dos alunos que acabou em destruição das instalações. Depende, óbvio, do que se faz com o tempo.

A segunda lição: quando o aprendizado de matérias como português e matemática se mescla com atividades lúdicas, os resultados aparecem.
Fica bem mais fácil tentar recuperar a defasagem em português e matemática. No Max, as aulas são dadas por músicos, atores, comunicadores, artistas plásticos, dançarinos, DJs, designers, cineastas. Ou até por outros estudantes. O tradicional Colégio Santa Cruz enviou 20 de seus melhores alunos para serem professores -um deles decidiu dar aula de filosofia com letras de rap. Cria-se a combinação mágica de cultura com educação, na qual o aluno não é só um espectador, mas um ator.
Não consigo enxergar futuro em aulas expositivas, descoladas do cotidiano, para uma geração que, movida pelos meios de comunicação, está cada vez mais hiperativa e interativa.

Terceira lição: quanto mais uma comunidade se envolve com suas escolas e desenvolve um sistema de corresponsabilidade, mais o aluno valoriza o ensino. E, claro, mais pressão ocorre pela qualidade, combatendo-se o absenteísmo e a rotatividade dos professores. Desaparece o efeito destrutivo da escola-motel. A violência e a indisciplina são enfrentadas com menos dificuldade. Mais grave para o professor do que o baixo salário é a violência cotidiana.
Invariavelmente, as escolas com melhor colocação na lista do Idesp exibem, em menor ou maior grau, as três lições. Algumas delas conseguem fazer milagres -nesse caso, todas são comandadas por diretores com habilidade de gestão e carisma comunitário.

A tradução das três lições é simples: não existe segredo para melhorar a educação pública. A boa notícia é que, a partir de agora, aqueles que seguirem essas lições serão recompensados com mais dinheiro no bolso. Afinal, o Idesp é a base para o pagamento de um bônus -o que considero uma das medidas educacionais mais ousadas dos últimos tempos.
No caso do Max, um professor do ensino fundamental, por ter ultrapassado 20%, pode ganhar uma recompensa no valor de até 2,9 salários. Seus colegas do médio, onde ocorreu um retrocesso, terão de esperar por uma melhor chance no próximo ano -mas já sabem como chegar lá. Melhor do que o dinheiro, porém, é o reconhecimento público.

PS – Vale a pena acompanhar uma experiência na zona leste com dez escolas estaduais. Estão criando ali a figura chamada de “coordenador de pais”. É alguém da própria comunidade contratado para aproximar as famílias dos colégios, ajudando-as a educar os filhos. Será uma espécie de professor comunitário. Em Praia Grande, há uma experiência semelhante: caíram abruptamente a evasão e as faltas. Em Belo Horizonte, além das notas, até a saúde das crianças melhorou.

gdimen@uol.com.br