Pacheco e a avaliação de desempenho

Avaliação de desempenho

Avaliação de desempenho
José Pacheco| 2009-01-07
Ser director de um arquivo morto, numa qualquer repartição, continua sendo pecuniariamente mais compensador do que exercer a profissão de professor, numa sala de aula.
Perguntaram-me por que razão me mantenho alheio à polémica em torno da avaliação de desempenho. Sendo dirigente sindical no activo, assistindo à contestação da proposta ministerial, como posso ficar mudo e quedo?

Os disparates ministeriais têm sido tantos, que gastaria muitas horas a comentá-los. E, dado que nunca houve avaliação de desempenho, mas meros processos administrativos baseados em critérios discutíveis como o tempo de serviço, prefiro abordar o assunto numa perspectiva “marginal”.

Naquele ministerial recanto, havia dezenas de zelosas funcionárias batendo teclas de computador, em mesas atafulhadas de relatórios e inutilidades afins. Perguntei a uma delas para que serviam tantas resmas de papel, quais os efeitos práticos daquela canseira. A funcionária disse-me estar a coligir os dados de um inquérito recebido das escolas. Quis saber o que iria mudar para melhor nas escolas, que pudesse ser atribuído àquela intensa azáfama burocrática. Fitou-me com o sobrolho carregado: “Isso eu não sei. Limito-me a cumprir ordens. Depois de ser assinado pelos meus superiores, o meu relatório vai para cima…”

“Para cima? Para onde?” – insisti. A funcionária quedou-se, semblante carregado, e mais não disse.

Apercebi-me de que todos aqueles técnicos eram professores. E eu, que estava crente de que trabalho de escritório é coisa de amanuense e que professor é aquele que se forma para trabalhar com alunos e com alunos trabalha!… Saí da reunião reflectindo: num tempo em que tanto se fala de avaliação de desempenho dos professores, que avaliação poderá ser feita relativamente a professores sem alunos? E veio à memória um outro episódio.

Houve um tempo em que a lei previa que, em casos extraordinários, a avaliação dos professores fosse contemplada com uma “menção de mérito extraordinário” e, consequentemente, os professores fossem recompensados com um reforço de salário. Os professores da Ponte – já nesse tempo com o seu projecto reconhecido como de elevada qualidade – foram convidados a requerer a benesse. Diziam-nos ser um “acto de justiça, o mínimo que poderia ser feito em reconhecimento pelo trabalho realizado pela escola”. Enviámos a candidatura e a resposta chegou peremptória: “o reconhecimento de mérito só pode ser atribuído a título individual”.

Recusámos a candidatura individual. Ou todos, ou nenhum, porque um projecto de escola é um acto colectivo. A candidatura foi indeferida. O júri recusou avaliar colectivamente os professores da Ponte, mas muitos pedagogos de gabinete foram individualmente avaliados, receberam menção de mérito extraordinário, subiram na carreira (docente!), alcançaram escalões de salário superior.

Recentemente, um ex-ministro da Educação queixava-se de que os seus directores-gerais não tinham as escolas entre as suas preocupações e que alguns deles eram de muito inferior qualidade. Mas, já em 1978, quando integrei uma equipa de professores a quem competiu apresentar um projecto a um alto responsável de um departamento do Ministério da Educação, eu fizera idêntica descoberta. Não levámos muito tempo para compreender que o nosso interlocutor nada entendia de… educação. Tinhamos perdido tempo numa longa viagem e gasto o nosso dinheiro em vão.

A avaliação de desempenho não deveria começar “por cima” (pressuposta a hierarquia)? Como são avaliados os funcionários que alimentam a pesada máquina ministerial? Como avaliar professores desperdiçados em funções administrativas? Que conceito de docência prevalece nos meandros da avaliação de desempenho? Que critérios presidem à avaliação de quem não age como professor?

O meu amigo Rui Canário dizia que aprender a aprender com a experiência só é possível a partir da crítica e da ruptura com essa experiência, mas não parece ser essa a regra. Não aprendemos com a experiência e mantemos práticas absurdas. A arte de educar alunos continua a ser desvalorizada relativamente ao exercício de funções burocráticas. Ser director de um arquivo morto, numa qualquer repartição, continua sendo pecuniariamente mais compensador do que exercer a profissão de professor, numa sala de aula.

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