Repitam a escola e os políticos. Não o aluno.

São Paulo, domingo, 15 de fevereiro de 2009

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GILBERTO DIMENSTEIN

Repitam a escola e os políticos.
Não o aluno


O professor não é valorizado nem defendido pela sociedade, o que implica menos pressão contra os governantes


A SEMANA PASSADA ofereceu uma das mais didáticas aulas de que se tem notícia, no Brasil, sobre as causas do péssimo ensino público. É um marco no aprendizado de uma nação sobre sua realidade social.
Pela primeira vez o país teve uma noção mais precisa sobre a qualidade dos profissionais que estão em sala de aula, depois de revelado o resultado do teste inusitado aplicado entre 214 mil professores paulistas. Aproximadamente 40% tirou nota abaixo de cinco, ou seja, 96 mil professores, dos quais metade não chegou à nota três.
A partir dos resultados, faço aqui a seguinte sugestão: não repitam o aluno, repitam a escola e os políticos. É muito mais justo e, possivelmente, mais eficiente, do que descarregar a culpa da incompetência no estudante incapaz de aprender.

 
Frequentemente se aponta o sistema de progressão continuada, apelidado de aprovação automática -o aluno só repete depois de um ciclo de quatro anos, como um dos principais responsáveis pelo ensino ruim. Quanto mais temer a punição, mais o aluno tenderia a aprender. Vejamos o tamanho dessa asneira.
A maioria dos alunos da rede pública vem de famílias pobres, com baixo repertório cultural. Some-se a isso que uma boa parte deles sofre de problemas físicos e psicológicos, sem receber o tratamento adequado -só nessa questão estamos falando, segundo as pesquisas médicas, em 30% dos estudantes.
Eles frequentam colégios, em geral, com instalações péssimas; basta ver as bibliotecas, os laboratórios de ciências e de informática. Para completar, pegam professores, com baixa remuneração, despreparados e desmotivados, o que estimula o absenteísmo e a alta rotatividade. Políticas públicas mudam ao sabor dos prefeitos e governadores ou de seus secretários.
O que vimos, na semana passada, é que o despreparo é maior do que imaginávamos. Perceba que estamos falando aqui do Estado mais rico do país.

 
Puxando o fio a partir da prova, em que, segundo as listas, 3.500 tiraram zero e apenas 111 (0,05%), a nota máxima, vemos a cadeia de vulnerabilidades. Já que dar aula em escola pública, especialmente nas grandes cidades e regiões metropolitanas e, mais especialmente ainda em suas periferias, não é exatamente das atividades mais atrativas -existe uma dificuldade imensa de atrair talentos. Todo o resto é apenas consequência, a começar dos cursos para formação de docentes.
As escolas são ruins, logo o professor não é valorizado nem defendido pela sociedade, o que implica menos pressão contra os governantes. Em nome de seus afiliados, os sindicatos acabam por piorar essa imagem, ao defender o absenteísmo, a alta rotatividade, atacar o pagamento por mérito.
Na semana passada, o sindicato de São Paulo conseguiu, com apoio da Justiça, que os professores reprovados, e mesmo os que tiraram zero, não fossem afastados da sala de aula.
Não conheço o caso de um sindicato que tenha contribuído tão intensamente para comprometer a imagem de uma categoria.

 
E depois disso tudo ainda querem culpar o aluno. Muito melhor repetir o professor e a escola. Depois de oferecida uma chance de recuperação e reciclagem, se o professor e a escola não se recuperarem, deveriam ser afastados e trocados os comandos. Melhor ainda (e mais justo) seria repetir os prefeitos e o governadores, caso não demonstrem empenho em aprimorar o ensino público.

 
PS – Essa proposta de punir o governador e o prefeito por causa do desempenho de suas escolas não é delírio. Está sendo articulada no Brasil, com apoio de entidades como Todos Pela Educação (onde está a elite empresarial e acadêmica), Unicef, Unesco, além de representantes de secretários e estaduais e municipais, um movimento pela aprovação da Lei da Responsabilidade Educacional.
Há uma possibilidade de que, no próximo mês, o Ministério da Educação prepare um projeto de lei para ser discutido em audiências públicas e depois enviado ao Congresso. Maluquice? Diziam que a Lei da Responsabilidade Fiscal não pegaria. Pegou -e é uma das razões que garantem certa estabilidade ao país.
Para os mais ricos, aliás, essa lei já existe. Alguém consegue imaginar uma escola privada em que os professores faltam, a direção troque constantemente e que a maioria dos alunos saia do último ano sem saber ler adequadamente. Por muitíssimo menos, os pais reclamam.

gdimen@uol.com.br

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