A luta de classes sai do armário.

Não se iludam, ela está viva e  é o que está por trás de reformas como a da Previdência e a Trabalhista.

A precarização do emprego é capítulo marcante: afeta economicamente os trabalhadores e embute na ‘vítima’ a responsabilidade pelo eventual fracasso.

Política

Reforma Trabalhista

A luta de classes sai do armário

por Reginaldo Moraes , professor da Unicamp, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu) e colaborador da Fundação Perseu Abramo   — publicado 02/05/2017
Tânia Rego/Agência Brasil
Dia do Trabalho

Daqui a pouco, a carteira de trabalho não terá valor

O chefe do governo espanhol, Mariano Rajoy, visitou o Brasil e  Michel Temer não perdeu a oportunidade de exibir suas perversões. Disse que as suas “reformas” eram inspiradas naquelas que Rajoy implantara na Espanha. Não podia ser mais claro. Ter o líder do PP como espelho é digno de um tolo.

Rajoy chegou ao governo nas eleições de novembro de 2011 e o único crescimento que administra é o da corrupção no partido. Desde essa época, rigorosamente, nenhum emprego fixo novo se criou na Espanha. Sim, houve alguma “reposição”dos empregos fixos antes existentes, mas os empregos novos, criados de janeiro de 2012 até hoje, foram sempre temporários, instáveis, precários e sem direitos. Simples assim, como mostra a estatística oficial espanhola. Chocantemente simples.

Bom, parece que é esse o modelito que Temer quer vestir na nova estação. Mas o modelo não para por aí. Vai além da qualidade do emprego e transborda nas consequências indiretas, mas muito sérias desses contratos temporários. O cientista político Jacob Hacker escreveu algo interessante a respeito desse desenho de sociedade. O estudo focaliza os Estados Unidos, mas sugere muita coisa sobre o Brasil.

Nas últimas décadas, afirma Hacker, os norte-americanos foram assolados por uma grande virada econômica e ideológica, uma mudança que tirava responsabilidades das corporações e do governo e jogava nas costas dos trabalhadores e suas famílias. Os trabalhadores arcam com a responsabilidade por suas aposentadorias e pensões, poupando e criando contas de previdência privadas. Arcam com os custos de saúde, comprando planos privados. Arcam com os custos de educação, pagando mensalidades. E arcam com todos os riscos do desemprego, guardando para os “dias de chuva”.

Para aumentar o problema, não se trata apenas de uma virada econômica. É uma virada ideológica, uma derrota para aqueles que batalham para ao menos  “civilizar” o capital, impondo alguns limites legais e contratuais. Todas as reformas – essas, sim, reformas – impostas ao capital durante o século XX tem sido atacadas e desmanteladas pelo capital nas últimas décadas, em todo canto do mundo. Como dizia um bilionário americano: “existe, sim, uma luta de classes – e a minha classe está ganhando”.

Mais uma vez recorremos ao livro de Hacker. Ele diz que passamos de um modo de ver o mundo para o outro. Sai de cena a ideia de que “estamos no mesmo barco, temos que compartilhar”. Entra em cena outra ideia: “cada um é responsável pela sua sina”.

A substituição de direitos sociais e serviços públicos por serviços comprados privadamente encorajam os americanos a “depender de si mesmos”, viver “de seus próprios recursos”, no limite do que “podem”. Responsabilidade individual, essa é a lição de moral. E esse cotidiano forçado pelas “reformas” muda pouco a pouco o modo como os americanos veem o mundo. Eles são cada vez menos “solidários” e se tornam cada vez mais individualistas… Mais republicanos, isto é, eleitores inclinados para o Partido Republicano, cuja mensagem central é essa, menos governo, mais empenho individual, cada um por si, mercado para tudo.

Não é só o emprego

Dentro da nova ofensiva capitalista, a precarização do emprego é apenas um capítulo desta, mas um capítulo marcante. Não apenas por afetar economicamente os trabalhadores, mas também por embutir na vítima a responsabilidade por seu eventual fracasso. Se você não acha emprego bom, é por não ter se esforçado para desenvolver sua “empregabilidade”.  E a nuvem de empregos precários também enfraquece a organização dos trabalhadores, o compartilhamento de valores, os hábitos e formas de vida e luta coletiva.

Nos Estados Unidos um emblema dessa mudança é este: nos anos 1960, o maior empregador era a General Motors, montadora em que o salário médio anual era de 29 mil dólares, com generosos benefícios indiretos (aposentadoria, férias, atendimento de saúde etc.). Hoje, o maior empregador é o Wal-Mart, com salários anuais de 17 mil e nenhum desses benefícios. Nos anos 1950 e 60, apenas 10% dos trabalhadores tinham emprego em tempo parcial. Nos anos 1990, essa taxa passou para 20% e um número cada vez maior tem contratos temporários. Os trabalhadores americanos, antes, tinham uma carreira (career). Passaram a ter um emprego (job) e cada vez mais são pagos para uma tarefa (task). Cada vez mais descartáveis, substituíveis e ameaçados.

É este o maravilhoso mundo novo que o modelito Temer pretende implantar. Não é apenas a destruição das leis trabalhistas. Vem junto a reforma da previdência, o enxugamento do seguro-desemprego, a destruição da saúde pública e um incentivo ainda maior ao plano privado, a cobrança de taxas e mensalidades nas escolas. E por aí vai. O inferno é o limite.

É uma ofensiva de classe. Parece velho, mas é atual: capital versus trabalho. É disso que se trata. Os capitalistas sabem disso, por isso querem que não saibamos. Devemos chamar tudo isso de “modernização”. Em breve, Minha Casa Minha Vida será substituído por Minha Senzala, Minha Sina. As novas antenas difundem as velhas mentiras.

 

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20 anos sem Paulo Freire.

Relembrando nosso educador maior. A cada dia mais necessário. Reportagem publicada na revista eletrônica Carta Educação, publicação da editora Confiança, que publica a revista semanal Carta Capital.

Paulo Freire defendia um processo educativo centrado na mediação educador-educando com o mundo

Por Sonia Couto
Neste dia 2 de maio de 2017, homenageamos Paulo Freire (1921-1997) por ocasião dos 20 anos de seu falecimento. O Instituto Paulo Freire (IPF), que há 26 anos trabalha na continuidade e reinvenção de seu legado, é sempre perguntado sobre o método de Alfabetização de Adultos que leva seu nome. Na verdade, é mais do que um método de ensino. Paulo Freire construiu uma filosofia educacional que pode e tem sido utilizada da educação infantil à pós-graduação, e para além, sendo referência em outras políticas sociais como a Saúde, a Assistência Social, a Cultura etc.

Por isso, é oportuno resgatarmos no que consiste o Método Paulo Freire para que se compreenda, com olhos contemporâneos, o cenário educacional brasileiro e atual. Não é demais observar ainda que o Instituto Paulo Freire, como parte das homenagens ao educador, está, neste momento, realizando a “Jornada Pedagogia da Autonomia”, que dá origem a um curso, nos meses de maio e junho, intitulado “Aprenda a dizer a sua palavra” (Mais informações em www.paulofreire.org).

Método Paulo Freire

Em 2012, Paulo Freire foi considerado o Patrono da Educação Brasileira pela sua imensa contribuição a favor de uma educação transformadora. Seu trabalho nessa direção surgiu a partir da criação de uma metodologia de alfabetização de adultos conhecida como Método Paulo Freire.

Existem diversos e conhecidos trabalhos sobre o Método que, segundo seu autor trata-se muito mais de uma teoria do conhecimento do que de uma metodologia de ensino, muito mais um método de aprender do que um método de ensinar.

O que hoje conhecemos como “Método Paulo Freire para Alfabetização de Adultos” surgiu com o trabalho realizado por Freire na década de 1960. Paulo Freire foi convidado a coordenar o trabalho em Angicos, em função do sucesso de experiências anteriores com essa metodologia e por sua postura inovadora em relação ao analfabetismo, inserindo-o na categoria de problema social, em oposição ao enfoque tecnicista vigente na época.

Freire iniciou o trabalho em Angicos com a formação inicial dos/as educadores/as populares que atuariam como “animadores de debate”, como eram conhecidos os/as alfabetizadores/as que atuavam nos círculos de cultura por ele criados.

Foram dez dias de círculos de diálogos com auditórios lotados, em que eram discutidas questões pertinentes ao tema, em especial as relativas ao papel do educador, numa sociedade em transformação, e à importância das relações entre educador/a e educando/a, no processo de ensino e aprendizagem.

Paralelamente à formação desses/as educadores/as, um estudo do universo vocabular dos/as futuros/as alfabetizandos/as estava sendo realizado sob a coordenação de Maria José Monteiro, estudante universitária e membro da equipe de Paulo Freire. Esse estudo (in loco) culminou com o levantamento de 400 palavras, das quais foram escolhidas aquelas que comporiam o léxico das 40 aulas previstas no projeto. A seleção das palavras por Freire e sua esposa Elza, também educadora, se deu em função das dificuldades e facilidades fonéticas, ou seja, o conjunto dos vocábulos que deveria conter, em grau crescente, as diferentes composições fonêmicas.

No dia 28 de janeiro de 1963, teve início a primeira aula dessa experiência que viria a ser conhecida no Brasil e no mundo como “As 40 horas de Angicos”. Além de abordar o tem alfabetização, a aula abordou o educador numa sociedade em transformação e a importância das relações entre educador e educando no processo de ensino e aprendizagem.

A 40ª aula aconteceu no dia 2 de abril de 1963, com a presença do então presidente João Goulart, que, junto às autoridades, alunos e imprensa, comprometeu-se em dar continuidade ao projeto em âmbito nacional, convidando Paulo Freire para coordenar a Campanha Nacional de Alfabetização.

No entanto, a instituição do Programa Nacional de Alfabetização, com base no Sistema Paulo Freire, em janeiro de 1964, teve pouco mais de 80 dias de existência. Todo o acervo empregado na execução do Programa foi recolhido com o objetivo de apagar até mesmo a memória daquela experiência. O que se assistiria nas experiências de alfabetização que se seguiram, no Brasil ditatorial, seria a despolitização total nos processos formativos e o congelamento das ideias e ideais transformadores.

O que de mais precioso Freire nos deixou foi uma metodologia sobre como podemos pensar o pensado, como compreender criticamente nossa realidade, com uma abertura para a análise da cultura e, portanto, uma maneira de filosofar sobre a filosofia.

Fundamentos do Método Paulo Freire

Na proposta freiriana, o processo educativo está centrado na mediação educador-educando com o mundo. Parte-se dos saberes dos/as educandos/as. Muitas vezes, o/a educando/a adulto/a, quando chega à escola, acredita não saber nada, pois sua concepção de conhecimento está pautada no saber escolar. Um dos primeiros trabalhos do/a educador/a é mostrar ao/à educando/a que ele/ela sabe muitas coisas.

Princípios que constituem o Método Paulo Freire

Politicidade do Ato Educativo

Uma das premissas do Método Paulo Freire é que não existe educação neutra. A educação, vista como construção e reconstrução contínua de significados de uma dada realidade, prevê a ação humana sobre essa realidade. Essa ação pode ser determinada pela crença fatalista da causalidade, portanto, isenta de análise, uma vez que ela se apresenta estática, imutável, determinada. Mas pode também ser movida pela certeza de que a causalidade pode ser submetida à análise e, portanto, pode ser relativizada e transformada.

O que existe de mais atual e inovador no Método Paulo Freire é a constatação da indissociabilidade entre os processos de aprendizagem da leitura e da escrita e o processo de politização. O/A alfabetizando/a é desafiado a refletir sobre seu papel na sociedade, enquanto aprende a escrever a palavra “sociedade”; é desafiado a repensar a sua vida, enquanto aprende a decodificar o valor sonoro de cada sílaba que compõe essa palavra. Essa reflexão tem por objetivo promover a superação da consciência ingênua – também conhecida como “consciência mágica” – pela consciência crítica.

Na experiência de Angicos, assim como em outros lugares onde foi adotado o método, as salas de aula transformavam-se em fóruns de debate, batizados por Paulo Freire como “Círculos de Cultura”. Neles, os/a alfabetizandos/as aprendiam a ler o mundo e as letras e a escrever sua história de vida e as palavras.

Dialogicidade do Ato Educativo

Sempre em busca de um humanismo nas relações entre homens e mulheres, a educação, segundo Paulo Freire, tem como objetivo promover a ampliação da visão de mundo do/a educando/a para melhor qualificar sua intervenção nele, o que, segundo Freire, é facilitado com a presença do diálogo. Não se baseia, como na “educação bancária”, no monólogo daquele que, achando-se saber mais, deposita o conhecimento  -como algo quantificável, mensurável – naquele que supostamente sabe menos ou nada sabe. A atitude dialógica é, antes de tudo, uma atitude de amor, humildade e fé nos homens, no seu poder de fazer e de refazer, de criar e de recriar (FREIRE, 1987, p. 81).

O diálogo entre natureza e cultura, entre o ser humano e a cultura, e entre o homem e a natureza constituía uma prática comum na alfabetização de jovens e adultos proposta por Freire. Fernando Menezes descreve como esse diálogo se efetivava nos círculos de cultura.

Momentos e Fases do Método Paulo Freire

Freire sempre se incomodava quando lhe atribuíam a autoria de um método de alfabetização. Ele dizia que o compromisso político com os renegados, com os proibidos de ler a palavra e reler o mundo, o levou a criar uma metodologia que mais se aproxima de um método de conhecer do que de ensinar.

Essa insistência em classificar a metodologia de Freire em termos de método ou sistema se dá pelo fato de ela compreender uma sequência de ações. Ela se estrutura em momentos não estanques, ligados entre si de maneira inter e transdisciplinar dada a sua natureza dialética.

Para situar melhor essa “sequenciação”, indicaremos os momentos que compõem a metodologia criada e adotada por Freire na década de 1960.

1.º Momento: Investigação Temática

Pesquisa sociológica: trata-se da investigação do universo vocabular e estudo dos modos de vida na localidade (estudo da realidade).

2.º Momento: Tematização

Seleção dos temas geradores e das palavras geradoras. “Tematizar” é transformar o observado em temas, para que se possa estudar, minuciosamente, seus componentes.

3.º Momento: Problematização

Busca da superação da primeira visão ingênua por uma visão crítica. Esta visão crítica objetivava transformar o contexto vivido. A abordagem metodológica privilegiava a leitura do mundo como instrumento de análise crítica da realidade.

Ao se utilizar essas práticas, amplia-se o conceito de alfabetização, que é entendida como uma fase inicial da aprendizagem da cultura escrita, devendo ser ampliada, gradativamente, de modo a possibilitar o uso social da leitura e da escrita nas práticas cotidianas. O que atualmente vem sendo chamado de letramento, sempre foi, para Freire, o papel da alfabetização. Nesse sentido, podemos utilizar a palavra alfabetização para designar um processo contínuo de aprendizagens e de seu uso social. Na perspectiva freiriana, a aprendizagem é sempre uma ação transformadora, e transformar, nesse sentido, é utilizar o aprendido para qualificar as intervenções no cotidiano.

Passados 54 anos de existência do Método Paulo Freire, ele permanece atual e cada vez mais necessário. Além de atender a um desejo do seu criador, atende às necessidades de milhares de educadores e educadoras que desejam fazer de suas práticas político-pedagógicas ações de emancipação, libertação e ressignificação do ato de aprender e ensinar.

Sonia Couto é mestre em Educação e doutora pela Faculdade de Educação da USP. Professora aposentada da Rede Municipal de Educação de São Paulo, é licenciada em Letras e Pedagogia. É autora do livro Método Paulo Freire, a reinvenção de um legado Brasília (Liber livros, 2008) e de livros didáticos para EJA na perspectiva freiriana, dentre eles o material didático do Programa Tecendo o Saber, da Fundação Roberto Marinho e do SesiEduca no Rio de Janeiro. Foi também uma das coordenadoras responsáveis pelo Projeto Memória Edição Paulo Freire (2005). Tem artigos publicados em revistas acadêmicas e em cadernos pedagógicos para Secretarias Municipais de Educação. Participou como docente e coordenadora pedagógica de projetos de Alfabetização de Jovens e Adultos em vários estados. Atualmente coordena o Centro de Referência Paulo Freire, que tem como missão socializar e dar continuidade ao legado de Paulo Freire.

Por que repetimos há séculos que os jovens vão matar a cultura escrita? – Sérgio Rodrigues (Folha de São Paulo)

Os jovens estão, mesmo, matando a cultura escrita?

Aqui, o ótimo texto :

20/04/2017 02h00

Na plateia do debate na Bienal do Livro de Fortaleza, segunda-feira (17), a jovem estudante de jornalismo pede a palavra para se queixar da inapetência das novas gerações para a leitura de textos com mais de cinco linhas, algo que ela atribui à cultura digital. Onde vamos parar?

Menos jovem, respondo que, quaisquer que sejam os problemas atuais de leitura e concentração, convém ter cuidado com visões apocalípticas.

O meio eletrônico dominante na minha infância era ágrafo. Quando a televisão reinava, ninguém –excetuados compromissos escolares ou profissionais– precisava ler ou escrever absolutamente nada.

O mundo era cada vez mais audiovisual. Quem negaria naquele momento que a palavra escrita, se não estava com os dias contados, teria uma triste sobrevivência artificial em santuários frequentados por gatos pingados?

A internet e as mensagens de texto revalorizaram a escrita de forma surpreendente e cabal. Claro, não se trata mais da velha escrita, os códigos são outros. Mas qualquer visão de futuro que não levar isso em conta será incompleta.

Mais uma vez, a perspectiva histórica é a melhor vacina contra uma falácia que o senso comum vive tentando nos impingir: o da decadência irremediável da língua e da escrita.

Parece intuitivo. Antes havia civilização, agora estamos à beira da barbárie. Tínhamos o paraíso; caímos em desgraça. Trata-se de um mecanismo psicológico imemorial, com ramificações religiosas. A catástrofe atinge todo mundo, mas quem a denuncia sente algum conforto moral.

Em seu livro “Guia de Escrita – Como Conceber um Texto com Clareza, Precisão e Elegância” (editora Contexto), o linguista e psicólogo Steven Pinker rebobina de forma deliciosa a história das visões apocalípticas sobre o inglês.

Poderia partir de hoje, mas opta por começar em 1978 (“milhões de asneiras e descuidos de gramática, sintaxe, fraseologia, metáfora, lógica e senso comum”) e recuar até 1478 (“nossa língua… difere de longe daquela que era falada e usada quando eu nasci”, escreveu um tipógrafo).

Pinker ainda vai além. Chega até milhares de anos atrás ao afirmar que “algumas das tabuletas decifradas do sumério antigo incluem queixas sobre a deterioração da habilidade de escrita dos jovens”. O sumério é a língua escrita mais antiga de que se tem notícia.

Conclusão do linguista: “Na realidade, o pânico moral sobre o declínio da escrita pode ser tão antigo quanto a própria escrita”. Seria difícil expor de modo mais claro a vaziez do bordão preferido dos apocalípticos: “Antigamente, havia respeito às regras”.

O fato é que as “regras” da norma culta –como as de todas as variedades da língua– mudam sem parar, lentamente, mas com efeitos dramáticos a longo prazo. Nossa eterna ladainha de decadência é um espetáculo tão risível quanto o de um cachorro correndo atrás do próprio rabo.

Reconhecer isso não significa negar os problemas e desafios ligados à escrita e à leitura. Também não quer dizer abandonar o apreço pela língua elegante, literária, cultivada –como Pinker não abandona.

O Brasil precisa de mais educação, não de menos. Só não vale suspirar pelo tempo em que as bacharelices afetadas do Hino Nacional passavam por bom estilo e os analfabetos eram 80% da população.

Aqui, o link.

Um pouco de poesia : Manoel de Barros.

Versos nos quais a poética de Manoel de Barros se exibe em plenitude.

Canção do Ver

Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro —
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra.
E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era
só abrir a palavra abelha e entrar dentro
dela.
Como se fosse infância da língua.

REPORTAGEM DO JORNAL RASCUNHO SOBRE MANOEL DE BARROS E A CANÇÃO DO VER.